Um mergulho dentro de mim: 10 dias de meditação em retiro.

Publicamos no site recentemente um relato de Eliane Brum sobre um retiro de 10 dias de meditação, agora você confere mais um depoimento sobre o mesmo retiro de outro praticante, o Jordy Júnior que nos enviou seu relato desta experiencia. Você também pode enviar seu relato de retiro para budavirtual@gmail.com.


Um mergulho dentro de mim

Em dezembro de 2013, uma amiga me disse a respeito de um retiro de meditação em que os alunos ficavam 10 dias em total silêncio. Eu estava passando por um período de transição na minha vida e buscava novas experiências espirituais. No mesmo dia em que ela me informou sobre o Vipassana, eu entrei no site e me inscrevi para o próximo retiro. E, no dia 22 de janeiro de 2014, eu embarquei no maior desafio do meu mundo interno.

Eu me lembro de ter pegado um ônibus até Miguel Pereira, município que fica na região serrana do Rio de Janeiro. No caminho, conheci um garoto e uma garota que vinham de Minas Gerais para o mesmo retiro. Conversamos a respeito das nossas aventuras espirituais e pegamos um ônibus que nos deixou numa estrada de chão. Caminhamos por cerca de 3,5 Km e conversamos durante todo o trajeto.

Assim que cheguei, fiz a minha inscrição e assinei um termo no qual me comprometia a: não roubar; não matar nenhuma espécie de ser vivo; não mentir; não fazer sexo; não utilizar substâncias como álcool, drogas ou medicamentos. Até aí, moleza.

Então, guardei meus pertences como carteira e documentos numa sacola. Entre eles, o livro que estava lendo: O Poder do Silêncio, de Anselm Grün. Sim, o livro também deveria ser guardado. Porque, para vivermos 10 dias mergulhados no Nobre Silêncio, não podemos estabelecer qualquer tipo de comunicação, incluindo receber informações externas.

E, durante todo o retiro, nós alternávamos entre a sala de meditação, o alojamento e o refeitório. A rotina diária era intensa. O primeiro sino nos acordava às 4h da manhã. E às 4h30 já deveríamos estar na sala de meditação. E as meditações seguiam até às 21h, com alguns intervalos para descanso, almoço e lanche.

Os primeiros dias transcorreram tranquilamente, até que eu me acostumasse com a fala do mestre indiano S. N. Goenka e, aos poucos, fosse me familiarizando com a técnica de meditação que nos estava sendo ensinada. De manhã, após o café, eu gostava de fazer a saudação ao Sol e alguns exercícios de yoga para alongar.

No quarto dia, eu experimentei algo fantástico. Num insight, me dei conta de que tudo é energia e está em constante transformação. Tudo é energia. Tudo muda. Somos, portanto, Energia e Consciência, e cabe a nós observar a realidade da mudança de todas as coisas de maneira equânime. Após uma das sessões diárias de meditação, eu pude experimentar fortemente a transitoriedade de todas as coisas e, abraçado a uma árvore, eu chorei feito uma criança.

Uau! Eu nunca tinha sentido aquilo. Eu percebi que não há distinção entre mim e uma árvore, por exemplo. Ambos somos: Vida, Consciência, Energia e estamos em constante transformação. E pude perceber que essa é uma das grandes verdades. Durante toda a eternidade haverá Vida, Consciência, Energia e Transformação.

A partir desse dia, eu passei a mergulhar mais dentro de mim e das coisas ao meu redor. Passei a prestar mais atenção nas minhas emoções, sentimentos e pensamentos, assim como nas cores, sons, odores e sabores. E, quanto mais consciência dessas coisas eu tomava, mais eu percebia a realidade de uma maneira mais sutil.

Nos dias seguintes, durante as sessões de meditação, um turbilhão de emoções, sentimentos, memórias de infância e direcionamentos que deveria tomar na minha vida brotavam ininterruptamente. Eu apenas procurava me manter equânime e observa-los, mas nem sempre conseguia. Era impossível não me emocionar ao ir de encontro àquelas fortes emoções. Até que eu descobri que o retiro na verdade acontecia dentro de mim mesmo. E, por isso, era tão importante que fizéssemos silêncio. Para ouvirmos tudo aquilo que trazíamos dentro de nós.

Meditar intensamente por cerca de 12 horas por dia é cansativo. E, à noite, o sono dificilmente vinha. Eu gostava de ficar deitado na grama olhando as estrelas até o sono chegar, mas não chegava. Quando me deitava na cama, ficava rolando por aproximadamente duas ou três horas até conseguir pegar no sono. E, quando finalmente conseguia dormir, os sonhos eram tão reais, com tanta riqueza de detalhes, que não pareciam sonhos. Pareciam lembranças de algo que vivi.

Durante o café da manhã e o almoço, pude experimentar os sabores mais deliciosos que já provei, mesmo o cardápio vegetariano não variando muito de um dia para o outro. Pude constatar, portanto, que as nossas experiências dependem da forma como percebemos as coisas e do nível de consciência dessas interações.

A partir do sexto dia, eu conseguia ver algumas luzes enquanto meditava e me sentia cada vez mais em Paz, leve e em sintonia com todas as coisas. Durante esse período, passei a enxergar a beleza da Vida em seus mínimos detalhes. A companhia de uma trilha de formigas no meio da tarde me trazia Paz, me fazia pensar no propósito da minha jornada. Mas, o mais importante era reconhecer o valor das coisas simples, da beleza que é cada Vida, de como todas as coisas na Natureza e no Universo estão conectadas. A cada dia, tudo parecia fazer mais sentido.

Ao longo desses 10 dias, três técnicas de meditação nos foram ensinadas. Mas, melhor que isso, foi mergulhar dentro de mim e vivenciar tudo que aquela experiência poderia me proporcionar. Algumas pessoas não aguentaram de dor. Sete desistiram. Entre eles, as duas pessoas que conheci no ponto de ônibus e que chegaram comigo em Vipassana.

Nesse retiro, eu pude perceber também que qualquer dor é suportável diante das ricas experiências que a vida pode nos proporcionar. E esse talvez tenha sido mais um dos grandes ensinamentos que aprendi em Vipassana: as dores são ínfimas e passageiras diante da beleza de todas as formas de Vida.

No último dia do retiro, a fala estava liberada. E, nos alojamentos e refeitório, estabeleceu-se um falatório maravilhoso. Era como se fôssemos amigos de infância que não nos víamos há anos. Nós, alunos, conversamos sobre inúmeras coisas que tínhamos vivenciando ao longo daqueles dias. Como por exemplo, sobre a estrela cadente que eu e uns colegas de alojamento, deitados na grama, vimos cruzar o céu na noite do segundo dia. Que enorme valor tinha cada detalhe! E grandes amigos eu fiz naqueles 10 dias de retiro.

Os dias que vivi em Vipassana foram, sem sombra de dúvidas, os mais intensos da minha vida. Eu saí de lá com um sentimento de gratidão profunda por tudo que tinha experimentado e por todo conhecimento que havia adquirido.  Também pude me conscientizar de que eu sempre posso dar o meu melhor em benefícios de todos os seres que encontrasse pelo caminho. Voltando pra casa, com os olhos cheios de lágrimas, eu só queria abraçar fortemente as pessoas mais próximas a mim e dizer o quanto eu as amava. Aliás, pude perceber que todos os seres vivos merecem receber o nosso Amor. 

Jordy Junior é formado em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e publica textos e vídeos no blog Busque a Vida

Para saber mais sobre o retiro Vipassana, acesse o site deles clicando aqui.

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