Lave a louça, varra as folhas: A sabedoria dos antigos donos de casa Karen Maezen Miller sobre como a prática doméstica dos antigos mestres Zen pode nos levar a encontros íntimos com nossas próprias vidas.

No outono, o amplo dossel de Plátanos gigantes do quintal fica levemente amarelado e as folhas caem. Primeiro por unidades e depois às toneladas. Uma parte de cada dia de outono vai me ver irritada ao ver as folhas caindo. Então, pego um ancinho.

Diga-me. Enquanto estou varrendo as folhas, isso está atrapalhando a minha vida? Isso interfere na minha vida? Isso está me afastando da minha vida? Apenas a minha vida imaginária, a vida dos “e se?” e dos “como pode?”: a vida que estou sonhando.

No momento em que estou varrendo folhas, no momento em que estou fazendo qualquer coisa, é minha vida, é todo o tempo, e é tudo de mim.

Na primavera, o jardim explode em vida e, mais uma vez, eu vejo que horas são: é hora de arrancar ervas daninhas. Quando eu olho para o trabalho infinito diante de mim, eu certamente gostaria de desistir. Mas quando eu consigo recuperar meu foco, percebo que é apenas uma erva daninha. Sempre há apenas uma erva daninha depois da outra. Eu sigo arrancando erva daninha por erva daninha, e as ervas daninhas sempre me mostram como. Eu nunca termino.

Ao procurar um significado maior na vida, algumas pessoas podem pensar que o trabalho doméstico é algo inferior. Cozinhar e limpar são inferiores. Eu conheço bem esse sentimento. Às vezes, parecem tão inferiores a mim que não consigo ver o fundo. Não consigo ver o começo ou o fim. Existe alguma razão para fazer um trabalho que parece inútil? Um trabalho, sem fim visível, sem nenhuma promessa de redenção e sem urgência aparente? Sim. É a sabedoria das antigas donas de casa.

Depois que o budismo foi para a China, a escola Chan substituiu a tradição de mendicantes itinerantes pela vida comunitária. Era uma coisa prática. E foi parte da prática. O treinamento monástico passou a envolver todo o trabalho essencial para a vida cotidiana – limpeza, culinária e jardinagem – bem como a meditação. Por essa razão, poderíamos ver os grandes mestres chineses como nossos precursores em tarefas domésticas conscientes, uma vez que muitos de seus ensinamentos apontam diretamente para as tarefas cotidianas que talvez negligenciamos.

Um monge perguntou a Joshu: “Todos os dharmas são reduzidos à um, mas ao quê a unidade é reduzida?” Joshu disse: “Quando eu estava em Seishu eu fiz uma camisa de cânhamo. Pesava sete libras.”

Mais de mil anos se passaram desde que Joshu deu essa resposta, originando um dos muitos koans clássicos que contam seus ensinamentos provocativos. Até hoje, muitos ainda estão se debatendo para encontrar uma saída para essa camisa. O que isso significa? O que ele está apontando? Eu não entendo!

Nós não nos debatemos apenas com uma camisa em um koan zen. Nós nos debatemos com as camisas nos nossos cestos de roupa suja. Com as calças, as blusas, as folhas e a roupa íntima. Lavar a roupa apresenta uma enorme oportunidade de prática porque provoca uma pilha sem fim de resistência egocêntrica.

Não é importante para mim. É tedioso. Eu não gosto de fazer isso!

O monge nesta história é igual a todos nós, buscando sabedoria através da investigação intelectual.

Se não formos cuidadosos, é assim que abordamos a atenção plena [mindfulness]: como uma idéia, uma que gostamos, que poderia elevar nossas vidas com um toque especial de consideração contemplativa, um método para fazer escolhas mais inteligentes e assim garantir melhores resultados. O problema é que a vida na nossa frente é a única vida que temos. A busca por significado rouba o significado de nossa vida, enviando-nos de volta às nossas mentes discursivas, enquanto, bem na nossa frente, a roupa se empilha.

Em seu comentário sobre este koan, o falecido professor e tradutor Katsuki Sekida lavou a confusão da camisa de Joshu. “As palavras de Joshu nos lembram das sensibilidades afiadas dessas pessoas que viveram nos dias em que essas coisas eram feitas à mão. As sete libras de cânhamo foram transformados em pano e cortados e costurados para fazer uma camisa. Quando Joshu colocou sua camisa de cânhamo, ele experimentou uma sensação que era o reconhecimento direto da camisa, pelo que ela era “.

Veja, a camisa é apenas uma camisa. Sinta o tecido, a trama e o peso de sete libras em suas mãos. A roupa suja é apenas a roupa suja. Puxe-a para fora do cesto, classifique por cor e tecido, leia as instruções e siga. Ao transcender obstáculos e superar as preferências, temos um encontro íntimo com nossas vidas toda vez que lavamos a roupa. Não é nada fora do comum, mas ninguém fica orgulhoso por um par de meias limpas.

“Com apenas uma mudança de perspectiva, as coisas mais comuns assumem uma beleza inexprimível. Quando não sabemos, não julgamos. E quando não julgamos, vemos as coisas sob uma luz diferente. Essa é a luz de nossa consciência, não filtrada pelo conhecimento intelectual, ruminação ou avaliação. Quando cultivamos a consciência não distraída como uma prática formal, chamamos isso de meditação. Quando cultivamos isso em nossa vida doméstica, chamamos de roupa suja, de cozinha ou de quintal – todos os lugares e formas de viver conscientemente, observando sem distração o que quer que surja à nossa frente. Mas, para nós, é difícil acreditar que a atenção é tudo o que há, e assim complicamos as coisas com nosso julgamento – relegando o ordinário à insignificância e idealizando o espiritual como inalcançável – nunca vendo que os dois são um.

Um monge disse a Joshu: “Acabei de entrar no mosteiro. Por favor, me ensine”. “Você comeu seu mingau de arroz? “, Perguntou Joshu. “Sim, eu comi”, respondeu o monge. “Então, é melhor lavar a sua tigela”, disse Joshu.

Este famoso koan é fácil de ver como uma metáfora. Esvazie sua mente e se livre das suas noções de realização espiritual. Mas suponha que você não veja a tigela como uma metáfora? Isso pode mudar a maneira como você olha para os pratos na pia da cozinha e acabar te ensinando tão completamente quanto.

A cozinha não é apenas o coração de um lar, também pode ser o coração de uma prática de atenção plena. Ao cozinhar e limpar, nos movemos para além de nós mesmos e nos aprofundamos nos cuidados compassivos com tudo e todos que nos rodeiam.

Comer é o nosso único consumo essencial e cozinhar é a caridade que temos em comum, então você poderia pensar que seu propósito seria óbvio. No entanto, um olhar crítico sobre o valor do tempo e o que julgamos serem nossos talentos superiores, faz com que a preparação de refeições raramente pareça valer a pena. Cozinhando para dois? Não vale a pena. Encher a geladeira? Não vale a pena. Sentar para jantar? Não vale a pena. Limpar tudo depois? Não vale a pena.

Nada vale o tanto que achamos que aquilo vale, porque, na realidade, o valor não existe. É uma invenção das nossas mentes julgadoras, um padrão imaginário para medir o valor imaginário de distinções imaginárias, e mais uma vez nós nos contemos perante a salada de vida que está diante de nós.

Se nada vale a pena, porque cozinhar? Por que comprar e cortar, ferver e trabalhar e limpar depois? Para se envolver na maravilha do seu próprio ser. Para ver o raro e valioso na banalidade. Para se sentir completamente satisfeito enquanto vazio. E para comer algo além da sua própria auto-importância inflada. Isso é o que esvaziamos quando esvaziamos a tigela, e uma cozinha ocupada oferece a chance de nos esvaziarmos muitas vezes por dia.

Um monge perguntou a Joshu: “Qual o significado de Bodhidharma ter vindo para a China?” Joshu disse: “O carvalho no jardim.”

Basta de roupa e pratos, você pode estar pensando, e as profundas questões espirituais? Por que os grandes místicos se esforçam tão diligentemente para a iluminação, se ela não tem mais profundidade do que o trabalho doméstico comum?

Veja além de sua casa, Joshu responde, além da delusão de um eu separado, preso pela falsa percepção do que está dentro e do que está fora. Esta é a verdadeira consciência plena: não os limites estreitos dos nossos conceitos, mas o mundo comum da mente desperta. Joshu nos diz para abrir nossos olhos e despertar em nosso próprio quintal.

Mais uma vez, Sekida poda a interpretação intelectual que pode obscurecer nossa visão clara. “Havia muitos carvalhos gigantes no jardim do templo de Joshu. Podemos facilmente imaginar que o próprio Joshu estava pessoalmente familiarizado com cada árvore, pedra, flor, mato e mancha de musgo – tão intimamente familiarizado como se fossem seus próprios parentes. “

Qual é o lugar que você conhece tão bem quanto sua própria família? Que, na verdade, está tão próximo quanto você mesmo? É o lugar onde você está à vontade, mesmo sobrecarregado, contente pela pia vazia, aproveitando o tempo entre folhas e ervas daninhas: sentindo-se conscientemente em casa, na casa que você nunca abandona.

Texto traduzido por Marcos Bauch do original em inglês de Karen Maezen Miller em Lions Roar disponível aqui →

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