Em Busca do “budismo original” Padma Dorje

Entre as muitas concepções equivocadas sobre o darma, algumas estão relacionadas a visões historicistas dos ensinamentos. Por exemplo, por cerca de quase dois séculos se acreditou, devido ao trabalho de eruditos e entusiastas ocidentais, que o cânone em páli, um conjunto de escrituras budistas preservado pela tradição Theravada, fosse o mais próximo dos primeiros registros escritos dos ensinamentos do Buda. Isto porém, foi refutado por evidências arqueológicas. Quais as implicações desta novidade para o praticante ou admirador dos ensinamentos do Buda?

Existe uma compreensível e louvável tendência de buscar a fonte mais fidedigna dos ensinamentos do Buda. Porém, em vez de seguirmos os conselhos do próprio Buda, tais como estabelecidos em inúmeras escrituras sobreviventes de todas as tradições – que nos dizem essencialmente para efetuarmos uma verificação empírica dos ensinamentos através da prática – muitas vezes usamos critérios alheios à tradição, e bastante problemáticos.

O critério mais comum entre pessoas que confiam – muitas vezes cega e inconscientemente – nas conquistas do iluminismo, ou da modernidade em geral, é frequentemente o de mera antiguidade. Se uma fonte para os ensinamentos do Buda é tida como antiga o bastante, ela sem dúvida, sem grande exame, nos parece necessariamente mais respeitável.

O que até faz certo sentido, já que ela seria menos sujeita à brincadeira de “telefone sem fio” com o passar dos séculos. Obviamente que, com o tempo, uma degradação da mensagem é o mais provável. E isto é discutido abertamente nos próprios textos budistas, que reconhecem muito dramaticamente a diminuição da acuidade e consequente perda de eficácia dos ensinamentos com o passar do tempo.

Porém, a sabedoria da impermanência é tal que até mesmo o próprio tempo muda com o tempo.

Certa vez um físico falou “em vinte anos de pesquisas a idade do universo variou 5 bilhões de anos”. É como se você consultasse um relógio duas vezes em dez minutos e percebesse uma discrepância de várias horas a cada consulta. O problema provavelmente não é com o tempo, mas com o relógio.

Algo similar acontece com o critério de antiguidade dos ensinamentos. O que é considerado “mais antigo”, com o tempo, também se mostra impermanente! “Deixou de ser o mais antigo”.

E foi exatamente isso que aconteceu com o cânone em páli.

Nos últimos 30 anos a visão de eruditos sobre a primazia do cânone em páli enquanto fonte mais historicamente fiel dos ensinamentos do Buda, em detrimento de outros cânones sobreviventes, mudou bastante. E, é claro, como tudo parece levar mais tempo para ser assimilado no mundo lusófono, que dizer no mundo lusófono tupiniquim, nossa visão acadêmica e popular do budismo por aqui ainda está presa na visão acadêmica japonesa, europeia e estadunidense dos anos 1950. Se os tempos corressem paralelos entre a compreensão acadêmica e popular, e entre todas as línguas em que há erudição do darma, talvez em 2050 começaríamos a ver pessoas comentando essa novidade quanto ao cânone em páli nos fóruns de budismo da internet em português. Por enquanto prevalece a visão do século passado.

E qual foi exatamente a mudança de entendimento?

Nossa fonte primária mais antiga do cânone em páli completo – o registro original em folha de palmeira desse conjunto de escrituras budistas que sobreviveu mais tempo – é de entorno da época da descoberta do Brasil, isto é, meros 500 anos atrás. Há duas páginas que foram preservadas no Nepal e datam do séc. IX, e os fragmentos mais antigos são do séc. V. Essas datas tão recentes, relativamente ao momento em que supostamente os textos foram primeiro registrados, um século antes de Cristo – pelo menos quatrocentos anos depois do Buda ter efetivamente pronunciado os ensinamentos –, se devem ao fato de que o clima quente e úmido das regiões que mantiveram esse cânone não é muito adequado para a preservação de textos.

Porém, por que, considerando esses longos hiatos (entre o ensinamento, o primeiro registro, as fontes primárias fragmentadas, e a fonte primária completa mais antiga disponível), já há muito conhecidos, ainda assim o cânone em páli foi por tanto tempo tido como o registro mais próximo do ensinamento do Buda?

Isso se deve principalmente a dois fatores: o conhecido conservadorismo da tradição Theravada (no estabelecimento e preservação do cânone), e também a visão historicista e colonialista que assumiu e reiterou esse conservadorismo, possivelmente com a cooptação de certa visão do budismo pelo viés iluminista – isto é, a ideia de um budismo original como uma religião “livre de superstições”, ou pelo menos supostamente mais livre de superstições do que as que se impunha à interpretação dos textos mahayana (os outros grandes cânones budistas disponíveis em sânscrito, chinês e tibetano contém também ensinamentos do mahayana, ausentes no cânone em páli).

O primeiro ponto se deve a como o cânone em páli se estabeleceu. Segundo a própria tradição Theravada, que mantém o conjunto de textos registrados durante o Quarto Concílio Budista no Sri Lanka, ele é um registro fiel dos ensinamentos bem preservados de forma oral por cerca de 400 anos após a morte do Buda (quando já haviam 18 grandes escolas budistas diferentes, cada uma com seu viés particular e com a preservação de ensinamentos diferentes – sendo que o Theravada ele mesmo ainda não havia sido estabelecido como uma tradição descendente e separada do Sthaviravada, que não existe mais). O estabelecimento desse cânone é tido como “conservador” porque, ao contrário do cânone chinês, por exemplo, que muitas vezes preservou em tradução várias versões de um mesmo ensinamento do Buda, no Sri Lanka houve um esforço, desde o início, de manter uma única versão de cada texto: a considerada a mais fiel pelos anciões, os Theras. A perspectiva chinesa era já a do reconhecimento de diversas tradições budistas como igualmente válidas, enquanto que no Sri Lanka o esforço era mais unificador. Assim, havia uma perspectiva que considerava necessário descartar textos de “origem incerta” (cinicamente falando: que não correspondiam ao entendimento particular da tradição específica coletando e decidindo aquele cânone).

Esse esforço de depuração do cânone culmina no século XII, quando um declínio na prática do darma e no respeito aos ensinamentos leva o rei Parakkamabaahu I do Sri Lanka a, entre outras atitudes, eliminar discrepâncias que existiam nas várias versões do cânone em páli então disponíveis na ilha. Assim uma “versão definitiva” foi estabelecida por edital, com base nos textos de um único mosteiro, o que, até onde se pode entender, não é um critério exatamente técnico.

É preciso lembrar que enquanto o “Quarto Concílio” acontecia no Sri Lanka, outro “Quarto Concílio” acontecia simultaneamente em Kashmir, com o registro de conjuntos de textos diferentes. Este outro Quarto Concílio também contava com a participação de grupos budistas mais diversificados e com provavelmente menos busca de uma unificação, e possivelmente mais focados na coexistência mútua. Uma participação, portanto, mais ampla em termos de variedade e quantidade. Hoje sabe-se que são as traduções oriundas desse concílio, e de outros registros contemporâneos, que acabaram compondo o cânone chinês, e, cada vez é mais evidente, também o que sobreviveu dos textos budistas em sânscrito (não foi achado um cânone completo e estabelecido em sânscrito, já que a tradição foi diretamente atacada por invasores que se dedicaram a destruir registros, mas mesmo assim, sobreviveu muita coisa).

Estes concílios para o registro de textos ocorreram exatamente porque já se percebia uma degradação na tradição oral. Isto é, os professores budistas da época, pertencentes a em torno de dezoito tradições diferentes, se deparavam frequentemente com corrupções e versões diferentes de um mesmo ensinamento, e a ideia que se formou foi a de que a perda dos ensinamentos por degradação era iminente.

Então, foi devido a esse medo que os registros escritos que temos até hoje foram realizados. É também fato que, embora a tradição Theravada considere o páli idêntico à língua que o próprio Buda falava (o magadhi prakrit), a visão da erudição atual é que, embora próximo ao páli, o magadhi seja uma língua diferente. (A fronteira entre um dialeto e uma língua diversa é um problema difícil e possivelmente insolúvel em linguística.) O Buda encorajava a tradução e adaptação do seu ensinamento para o vernáculo (a língua que as pessoas-alvo dos ensinamentos usam), e em quatrocentos anos de traduções, a língua que o próprio Buda falava perdeu (ou nunca estabeleceu) registro canônico.

Todos os registros budistas existentes há mais de 2000 anos são portanto traduções de várias tradições orais que preservaram os ensinamentos. Não há registro em magadhi, e, portanto, não há nenhum registro das palavras do Buda que não seja uma tradução.

Quando os europeus finalmente começaram a estudar o budismo, duzentos ou trezentos anos atrás, uma série de preconceitos os levou a assumir o cânone em páli como a fonte mais fidedigna, porque supostamente “mais antiga”. O fato do corpus-páli apresentar coesão e menos redundância, devido exatamente à tendência conservadora e insular (literalmente, é preciso lembrar que o Sri Lanka é uma ilha) da sustentação de uma tradição única e específica (uma subdivisão ou derivação de apenas uma das dezoito escolas catalogadas no Quarto Concílio), e considerando o fato de que o budismo estava extinto no seu país de origem, a Índia, desde as frequentes e violentas invasões muçulmanas dos séculos ao redor do ano 1000, fez com que o cânone em páli fosse reconhecido pelos ocidentais, e em seguida pela própria modernidade budista na Ásia, como “fonte mais original”.

Com os ideais neoclássicos, as versões tidas como mais mito-poéticas das escrituras mahayana foram então – quando não explicitamente, pelo menos implicitamente – assumidas como corruptelas posteriores. Segundo essa visão formulada por europeus e asiáticos sectários, eram possivelmente algo estranho ao budismo, alguma interferência hindu tardia “sujando” aquele ensinamento tão espartano (na visão europeia quase grego mesmo, que curioso!) supostamente contido no cânone em páli.

E aqui este “supostamente” é enorme. O cânone em páli pode não ter tantos arroubos numéricos ou tantas considerações sobre vastidão de espaço e tempo que são comuns nos sutras mahayana, mas ele é cheio das mesmas coisas que os iluministas oitocentistas e a mentalidade rasa moderna considerariam “superstições”.

Por exemplo, examinemos o puja diário de fogo comum na religião bramânica e na tradição védica em geral. Ele é louvado pelo Buda em uma das escrituras em páli. As escrituras do cânone em páli também estão cheias de personagens “sobrenaturais”, ou visões comuns da cultura indiana, que nenhum budista em lugar algum nega, mas que a visão moderna do budismo tida como “cética” em geral não aprecia. Estes aspectos rituais e “sobrenaturais” foram relegados a curiosidades desimportantes, e outros discursos do Buda, como o Sutra dos Kalamas, que estão mais de acordo com os ideais iluministas e os preconceitos modernos, com como outros textos que condenam, por exemplo, a ênfase em rituais ou em aspectos menos compreensivelmente naturalistas, foram elevados a textos centrais, mesmo que sua relevância fosse média ou mesmo menor nas tradições budistas em existência nos últimos séculos (e também no cotidiano dos praticantes nativos).

Isto tudo faz parte da adaptação do budismo à modernidade, e o budismo é uma tradição extremamente flexível. No entanto, o fato é que à vista do entendimento atual do budismo, e de evidências arqueológicas, não se sustenta mais a ideia da primazia do cânone em páli como representação “mais fidedigna” dos ensinamentos do Buda, em contraposição a essas outras fontes textuais.

E tampouco a visão de formas menos “místicas” dos ensinamentos faz qualquer sentido, uma vez que quase todos os aspectos cotidianos do hinduísmo, à exceção da crença num “eu”, não foram refutados pelo Buda, e muitas vezes foram incorporados à forma de vida budista sem problema algum.

E aqui quero frisar que qualquer desses pontos em nada diminui ou degrada os ensinamentos contidos no cânone em páli. Eles são integrais a qualquer visão do budismo como um todo, e em particular no entendimento de como o budismo pode se aproximar da modernidade – mesmo porque eles têm sido colocados nesse patamar de paragono da fidedignidade há quase dois séculos, e esses dois séculos são dois séculos que também pertencem à história do budismo e não podem ser negados. O que os colocou nesse lugar pode não ser exato, ou completo, mas isso aconteceu e influencia tudo no budismo até hoje.

Se o cânone páli não é necessariamente a fonte mais fidedigna dos ensinamentos do Buda, isso em nada implica que ele seja menos fidedigno do que qualquer outro corpus tradicional sobrevivente.

Além disso, mesmo sua posição particularmente exaltada não é em nada equivocada – já que é um corpus efetivamente coeso e completo: é apenas a questão da primazia que está em jogo. Evidentemente que qualquer praticante Theravada não sectário respeita o mahayana como autêntico, e vice-versa. Ainda assim, existe uma tendência a justificar a própria tradição como superior ou mais original, por todo o lado.

Porém, embora seja muito pobre por si só usar um critério de antiguidade ou historicidade, muito pior é quando esse critério, que já é bem ruim, também se mostra literalmente equivocado. E também o critério de obras budistas selecionadas apenas soarem melhor ao que não passa de preconceitos modernos e ideias de naturalismo incompatíveis com visões oitocentistas e metafísicas de cunho fisicalista não é o mais isento.

Quais são as evidências arqueológicas? Fontes primárias de textos mahayana, algumas vezes nem tão fragmentadas, foram encontradas e datadas como tendo sido registradas um ou dois séculos depois dos dois Quartos Concílios. As fontes budistas primárias mais antigas estão disponíveis em sânscrito e na língua de Gandhara, e não em páli, e contém tanto escrituras mahayana e “proto-mahayana” quanto semelhantes àquelas disponíveis no cânone em páli.

Assim, a visão da primazia histórica de alguma tradição ou corpus canônico se mostra, com o conhecimento de fontes primárias hoje, bem como a erudição atual sobre o assunto, como simples sectarismo e preconceito.

 

O que isso tem a ver conosco enquanto praticantes?

Ainda assim, tudo isto acima se refere a assumirmos a historicidade em si como um critério valorizado pelos ensinamentos budistas, porém, ela de fato não é valorizada nos textos budistas ou na cultura indiana clássica.

O registro escrito do darma não é a fonte primária dos ensinamentos, e sim a tradição oral. O Buda nem sempre encorajou as pessoas a registrar por escrito seus ensinamentos. Parece ter havido ocasiões em que encorajou esta atividade, e também outras em que desencorajou – mas independentemente disso, o Buda jamais encorajou as pessoas a procurarem o darma através da leitura. Pelo menos não da leitura silenciosa e individual de textos.

Em outras palavras, o darma é uma tradição eminentemente oral. Isso implica que as palavras do Buda precisam chegar até nós acompanhadas de três elementos presenciais: exemplo pessoal, interpretação viva e perguntas e respostas. O darma simplesmente não é algo que se obtém olhando para um texto e pensando sozinho, como sempre pensamos dia entra, dia sai. É preciso interatividade e presença. Precisamos conhecer o exemplo do praticante do darma do Buda, ouvir de sua boca as palavras carregadas pelo contexto de sua emoção e entendimento, e fazer perguntas e receber esclarecimentos. Esse foi o método estabelecido pelo próprio Buda, o estudo de textos é sempre concomitante, e secundário, a esse método.

Os refúgios são Buda, Darma e Sanga. Não são Buda, Livros e Internet. Darma implica os ensinamentos, e a fonte superior dos ensinamentos é a transmissão oral. Os textos são um suporte para a transmissão oral e subsequente estudo. Darma também significa prática de acordo com esses ensinamentos e com essa supervisão. E quem dá esses ensinamentos e faz essa supervisão? A sanga, em particular a sanga exaltada daqueles que atingiram eles mesmo o resultado das práticas e integraram os ensinamentos.  

Este entendimento não implica que os textos sejam desvalorizados e desprezados no caminho budista. Claro que não – particularmente inclusive no mahayana. O problema é certa atitude muito comum, semelhante à atitude de alguém que busca o budismo como quem visita um museu. A pessoa faz várias pressuposições cínicas, por exemplo, a de que as instituições e tradições estão necessariamente corrompidas, e não só capengas, mas deturpadas ao ponto de se tornarem absolutamente inúteis. Então, munido de seu “espírito independente”, a pessoa vai ao Google e pesquisa “quais são os textos mais fidedignos do budismo”, ou algo do tipo. E então ela encontra várias respostas semelhantes, embasadas nas teorias furadas de europeus de várias décadas atrás, e decide estudar o cânone em páli. Por conta, sem critério, ou com o critério que ela encontra no google após novas buscas, para justificar novamente seus preconceitos. Então ela segue para fóruns e outros espaços e regurgita esse entendimento como se fosse budismo, e outras pessoas acreditam.

Basta entrar em qualquer fórum de budismo na internet e ver isso acontecendo o tempo todo.

Nunca passa pela cabeça de um “praticante de internet” considerar os muitos pontos furados que levaram a essas conclusões, e aos muitos defeitos institucionais prováveis no estabelecimento de qualquer cânone.

Não há absolutamente nada de errado em estudar o cânone em páli, é claro, porém a atitude de museólogo e o pouco ceticismo quanto aos resultados da historicidade demonstram onde está o refúgio do interessado no darma. Muitas vezes o refúgio jaz nos vieses próprios da pessoa, bem como em vieses acadêmicos ultrapassados e equivocados. É uma mistura de comodismo, preconceito e soberba.

Ora, basta um breve raciocínio: o próprio Buda não começou ensinando com textos. Os textos surgiram posteriormente. Nós impomos a essa figura no passado certas preconcepções, e talvez a partir disso vemos florescer o mérito de nos interessar por suas palavras. Mas então desconfiamos daqueles que são os efetivos guardiões desse conhecimento, as pessoas que colocam ainda hoje esses ensinamentos em prática? Preferimos apenas ler algumas coisas, sem um critério maior do que o de simplesmente assumir certos preconceitos com relação a este ou aquele texto ou conjunto de textos?

Isso também satisfaz um pouco a resposta simplista e livre de nuanças que em geral nossa comodismo leva a buscar. Qual é a bíblia do budismo? Ora, leia o cânone páli. Você precisa de um livro, aqui tem um livro. Ninguém quer se tornar especialista em história do budismo para só então determinar por onde quer começar. E, na verdade, nem precisaria. Há um critério mais tradicional e simples, e virtualmente livre de mudança nesses 2600 anos, mas que não nos parece muito cômodo: o envolvimento com uma tradição viva.

Será que a suposta isenção dos historiadores nos fascina mais do que o exemplo vivo dos praticantes?

Na visão budista os ensinamentos do Buda são como remédios. A metáfora é válida, porque idealmente os remédios são receitados. Assumir a visão historicista que assume o cânone em páli como o mais fidedigno é como separar várias prateleiras de uma parte imensa de uma farmácia mais imensa ainda, e começar a tomar os remédios um a um por critérios semi-aleatórios, como a ordem alfabética, ou a indicação de algum sujeito com aparência de autoridade, mas que está operando com base em conhecimento acadêmico datado, e que além de tudo está vinculado a uma “indústria farmacêutica” específica, e que ainda por cima tem que fechar uma quota com relação a um medicamento específico para ganhar um bônus. Ou pior, com base em alguém que dá opiniões em fóruns de internet.

Ou seja, vai haver certa arbitrariedade. E essa arbitrariedade é evidente quanto aos “estudos budistas” na academia, e quanto à busca por um “budismo original” desvinculado de uma tradição viva. O ocidente, enquanto descobre o budismo, também cria um budismo – e nada de errado com isso, desde que estejamos bem cientes de que é isso que está acontecendo. E que haja mecanismos pelos quais a tradição viva possa efetuar controle de qualidade.

Essa situação do pequeno grupo de prateleiras na vasta farmácia é efetivamente paralela à do ocidental que busca como primeiro contato no darma algo como o Sutra dos Kalamas. Ele vai ao cânone em páli e busca esse texto em particular devido a certo viés iluminista que temos na cultura moderna, que várias vezes glorifica este diálogo do Buda como o exemplo da mente isenta e até científica que O Abençoado teria.

E até certo ponto, tudo bem, não é como se o Sutra dos Kalamas tenha qualquer defeito, ou mesmo alguma contraindicação grave.

Porém essa ênfase arbitrária precisa ser reconhecida para que, enquanto cultura, e também enquanto indivíduos, possamos ir além dessa mentalidade de “budismo de museu” – essa mentalidade limitada pela visão acadêmica e historicista de várias décadas atrás. Não deveria ser ela a escolher os textos para nós. E, além disso, inevitavelmente o texto, como criatura amorfa que não tem o poder de reclamar ou responder, muitas vezes só serve para confirmar nossas expectativas modernas.

Essa síndrome do “budista de internet”, que não busca refúgio na sanga (a comunidade budista), e que assume todo tipo de fonte arbitrária como critério para sua busca no darma, principalmente suas próprias inclinações pessoais, é em si um dos elementos da modernidade que mais corrompem o darma.

 

Qual é a solução?

Buscar uma comunidade de praticantes, e professores vivos.

O primeiro critério para nos engajarmos na prática é ver um pouco do resultado dela nos outros. Informação ajuda, mas há um oceano de pessoas preso na busca de informações há muitos anos, e isso não leva a lugar nenhum.

Claro, podemos ter o maior apreço pela figura histórica do Buda, isso é excelente. Ainda assim, os ensinamentos nos levam a examinar de onde vem esse apreço: o próprio Buda disse: “preste atenção nos ensinamentos, não na pessoa”. De onde será que veio essa conexão, esse mérito que temos? Reconhecemos valor no Buda, acima de tantas outras figuras e exemplos, exatamente por quê? Normalmente temos uma visão romântica e idealizada de personagens históricos, o que por si só é excelente, desde que não obstaculize o objetivo do que o Buda ensinou, que é nós mesmos nos revelarmos budas.

Caso a pessoa olhe para o Buda como muitas pessoas olham para a figura de Jesus Cristo na tradição cristã, isto é, como alguém especial, com relação a quem sequer ousamos querer copiar todas as qualidades, o ensinamento do Buda simplesmente por esse mesmo motivo já perdeu seu propósito particular. O objetivo do budismo é que nós sejamos como o Buda, e revelemos as mesmas qualidades que ele possuiu. Não apenas colocar o Buda num altar inatingível e tentar decifrar, num mar de supostas distorções, o que o Buda realmente teria ensinado 2500 anos atrás.

Se o budismo não vive nos praticantes até hoje, dificilmente ele será de alguma valia para nós.

Além disso, nenhum de nós deveria ter a hesitação ou vergonha de pensar em ser exatamente como o Buda, ou mesmo de dizer isso em voz alta. Tomar refúgio é seguir os passos do Buda para ser exatamente como ele. Nem um pouco menos que ele. O próprio Buda encorajava isso. O Buda é um exemplo do que você pode ser. Se ele for alguma coisa que você não pode ser, ele não serve para muita coisa.

Caso não acreditemos que existem pessoas vivas hoje nesse caminho, e que já revelaram em grande medida essas qualidades, aí realmente colocamos o budismo num museu. Vamos ler os textos para que? Para saber o que teríamos realizado caso tivéssemos nascido 2600 anos atrás e fôssemos alunos diretos dele? Qual a vantagem disso? Por isso usamos a expressão “budismo de museu” para caracterizar uma conexão desse tipo.

Ou, pior ainda, se achamos que nós mesmos vamos realizar alguma coisa lendo esses textos, e ainda assim desconfiamos de toda a comunidade budista, isso sim nos faz um tanto megalomaníacos.

Ademais, em certo sentido, essas visões historiográficas europeias fizeram muitas vezes, por certo racismo (a megalomania de uma cultura), exatamente isso: elas venderam para o mundo todo, e até mesmo para os asiáticos, uma versão do budismo filtrada pelo viés europeu.

O mecanismo na verdade é bem o mesmo desse indivíduo que desconfia da comunidade budista, e que acha que sozinho encontrou o budismo verdadeiro.

“Já que a maioria dessas pessoas que se considera budista na Ásia está praticando o que são certamente formas corrompidas (essas pessoas marrons cheias de suas superstições curiosas! Como aprontam…), nós, ingleses e alemães, determinaremos o que é budismo original, e, aliás, o iremos reintroduzir na Índia, junto com um monte de ideais iluministas e visões cívicas puramente britânicas.”

E isso de fato aconteceu: crianças sendo apresentadas ao budismo na Índia, 800 anos depois dele ter desaparecido por lá, com cartilhas britânicas. Com uma versão britânica de uma interpretação de certas ideias do cânone páli, e com uma pitada de “civilidade britânica” no meio do texto, para talvez aplacar aquela colônia selvagem…

Sim, efetivamente há mérito mesmo nessa reintrodução maculada. Mas também sem dúvida é preciso sempre recontar essa história e depurar os erros do passado.

E, principalmente, não devemos buscar esse “budismo para inglês ver” em nossa própria prática. Devemos sim nos identificar com essa gente colorida que sempre soube como preservar e aplicar os ensinamentos do Buda, e a que não devemos escamotear como “supersticiosas”, por mais que suas ideias nos pareçam estranhas.

 

“Budismo Brasileiro”

A soberba é tamanha que o viés sectário acaba sendo muitas vezes usado até mesmo como principal combustível para “modernizar” o darma. Aqui no Brasil mesmo se ouve, de pessoas que se afirmam inspiradas pelo budismo tibetano (!), que o Buda ensinou, como método formal, apenas meditação silenciosa – que foi quase apenas isso que ele fez – e não as práticas que os professores tibetanos ensinam.

Essas coisas de ritual tibetano… o Buda nunca teria mexido com isso. O Buda é meio como um cara de Oxford, entende? Não é nada como um praticante de umbanda. O Buda tem alma de branco, sabe? Eles afirmam que o Buda não ensinava isso com a boca cheia, na empáfia de terem descoberto o seu próprio “budismo original”, e assim terem se tornado os únicos guardiões verdadeiros de tudo que o Buda teria feito ou deixado de fazer.

Estas atividades de tibetanos seriam meras adições posteriores, necessárias apenas no contexto cultural tibetano (essa gente, ora, supersticiosa e atrasada), e não adaptadas à modernidade. Gente que usa smartphone não usa rosário para contar mantra, esse tipo de coisa.

A maioria das práticas bem comuns no budismo tibetano podem então ser, portanto, descartadas sem qualquer segundo pensamento. São meras adições tardias feitas por selvagens semiletrados e supersticiosos.

Porém, qual é a visão dos próprios professores tibetanos sobre suas práticas? Na visão deles, o Buda as praticou e ensinou sim, só talvez em maior sigilo. Assim como no registro público do Quarto Concílio, que fez isso por reconhecer degeneração, também o registro do tantra budista só surgiu por degeneração. E com uma tradição envolvida em grupos bem menores e na ideia de segredo, se pode supor sem salto grande de imaginação que o tantra se preservou melhor e demorou mais para ser registrado.

Daí os historiadores ficarem confusos. Compreensivo. Mas o brasileiro moderno preferir o historiador do que o conhecimento interno e nativo da própria tradição? Não sei se é exatamente apenas o problema da cor da pele, mas também passa por isso. Somos céticos com quase tudo, menos com que o historiador afirma em tom puramente especulativo? E algumas vezes explicitamente especulativo, porque eu mesmo li vários eruditos comentando que a historiografia do tantra não pode ser precisamente estabelecida justamente porque se trata de uma tradição que preza o segredo e a oralidade, preza a oralidade ainda mais do que o budismo ensinado de forma mais pública. Até hoje os tibetanos decoram milhares de páginas de texto em sua educação, e são capazes de recitar coisas de cabeça por várias horas, ou dias em sequência. Isso que claramente se considera que essa tradição – de saber textos precisamente sem referir-se ao texto impresso – está profundamente deteriorada por… justamente pela existência e dependência em textos impressos. (A tradição de imprimir o tantra e as demais tradições da Ásia existe há muito mais tempo do que na Europa. Quando os europeus ainda estavam matando rebanhos para fazer livros com páginas de pele de animais e escritos à mão, já existia papel e imprensa na Ásia há quase mil anos.)

Qualquer pessoa que recebeu uma iniciação de Kalachakra do Dalai Lama sabe que, na visão dessa tradição, ela foi ensinada pelo próprio Buda, no exato mesmo momento em que este ensinava o Sutra do Coração em Rajagriha. Na visão tântrica, e na visão do mahayana, o Buda não estava limitado a só um lugar no espaço. Os historiadores duvidam disso, e, como já apresentado, não há evidências do Kalachakra ser tão antigo. (Embora o próprio Sutra do Coração tenha, é fato, ficado alguns séculos mais velho nos últimos trinta anos… e a fonte primária mais antiga do Kalachakra ser da mesma época das fontes fragmentadas do cânone páli!)

É talvez um pouco mais importante do que a historiografia, que muda o tempo todo com novas evidências, e que especula com base em evidências circunstanciais, simplesmente saber que as pessoas que colocam isso em prática e obtém resultados, elas mesmas, veem a origem dessas práticas no próprio Buda.

A ciência não é racista, claro. Mas algumas vezes ela já foi racista, não é mesmo? Então que tal exercer um pouco de ceticismo?

Além de tudo, os historiadores não têm sido muito eficazes em dar exemplo das qualidades do Buda, coisa que Sua Santidade o Dalai Lama faz com grande facilidade. Os historiadores falam de coisas antigas, e não fazem muito mais que isso.

Por que, enquanto praticantes, leva-los a sério?

E, além disso, há o reconhecimento de que a prática de meditação silenciosa parece tão palatável à mente moderna e científica. Para que precisaríamos algo mais do que esse silêncio nobre do Buda? Vamos cortar a parafernália e focar no discurso 118 (em que o Buda ensina a sentar imóvel e focar na respiração)! Dzongsar Khyentse Rinpoche, um butanês que ensina a tradição tibetana – e que também, como o próprio Buda, é bem crítico ao excesso de parafernália, diga-se de passagem –, tem dito que essa tendência de achar que a meditação é a principal prática budista está tão forte que o budismo acaba confundido com apenas isso, o que não é bom. Ele mesmo preferiria que seus alunos refletissem sobre a impermanência ou apenas lembrassem o Buda, do que fazer essa coisa da moda, meditar, e se achar budista por isso.

O budismo sempre foi vasto, e sempre trabalhou com a diversidade. Assumir isso ou aquilo como algo mais do que “uma prática que preferimos” ou que talvez seja melhor para nós, seja o suprassumo ou a essência do darma, é simples megalomania.

 

A essência do sectarismo

Esse viés ou ênfase em certos aspectos, em detrimento de outros, no fundo, é nada mais do que a essência do sectarismo. O Buda ensinou diversos métodos, e, como atesta o cânone chinês, é possível que tenha dado os mesmos ensinamentos com algumas adaptações para públicos diversos. O fato do registro oral do darma nos dois Quartos Concílios ter produzido versões diferentes – algumas vezes mais de duas, ou mais de meia dúzia – não precisa derivar simplesmente de corrupção na memória oral dos praticantes. Pode ser que o Buda, como um bom professor, adaptava um mesmo ensinamento para plateias diferentes. É mais simples aceitar isso, não?

A vastidão da mente do Buda produziu diversos estilos de ensinamentos para beneficiar os diversos seres, não para semear discórdia e produzir sectarismo.

Ainda assim, o “budista de internet” frequentemente repete que o budismo tem tantas formas porque, como o cristianismo, se corrompeu com o tempo. E agora não temos mais nenhuma forma original, ou no máximo, o cânone em páli.

É uma bobagem sem tamanho.

O budismo tem milhares de formas autênticas vivas, com muitos praticantes vivos espelhando perfeitamente as qualidades do Buda. Diversidade é riqueza, e não implica necessariamente sectarismo. Pelo contrário.

E se no próprio cânone em páli o Buda louva o puja de fogo, ainda que em outros textos neste mesmo conjunto de textos condene o exagero ritualístico, nenhuma das duas ideias deve ser ignorada em detrimento da outra por uma mera questão de modismo ou preferência.

Que a tradição Theravada, principal guardiã e preservadora da joia dos agamas, floresça cada vez mais. Que esse florescimento revele cada vez mais a flexibilidade do Buda, ao nos apresentar o exemplo mais cuidadoso e despojado dos ensinamentos do Vitorioso, em meio a um mar de outras flores tão belas, cada uma peculiar. Que as tradições budistas reconheçam sua riqueza mútua, e que abandonemos o sectarismo, o racismo, a soberba e o preconceito acadêmico, a mentalidade que coloca o Buda em um museu, a proclamação de um “budismo original” produzido pela moda e pela preferência, e a perspectiva do “budista de internet”. Que todos os muitos “budismos originais” preservados nestes 2600 anos sigam vivos e vibrantes, disponibilizando livremente a infinita panaceia melíflua que é o darma, a única verdadeira cura para a doença crucial da ignorância e do sofrimento.

*O Padma Dorje fez um vídeo sobre este assunto, confira aqui

eduardo-pinheiro-1Padma Dorje é praticante budista e autor de Filosofia: forma de vida & passarela de egos.  Saiba mais sobre seu trabalho no site tzal.org.

Comentarios:

comments