“Ninguém consegue ser tão puro” – Moralismo, radicalismo e atrofia ética. Padma Dorje

Com a morte de Deus no séc. XIX, a paulatina ressignificação da ética e do sentido acabou levando, por um lado, ao liberalismo amoral pseudo-darwinista e individualista (“a promoção da competição entre as pessoas deixa a sociedade mais eficiente e justa”), e por outro, a uma tentativa construção de “ética secular”. Isso acabou colocando o ensinamento empírico e ateísta do Buda na posição incomum de única panaceia infalível com relação a esses dois extremos. No entanto, na mentalidade corriqueira, o budista é visto como um perfeccionista moral – de quem tanto se cobra as mais absurdas santidades, quanto de quem, por isso mesmo, se naturalmente desconfia como necessariamente hipócrita. Esses extremos, no entanto, são apenas óbvios frutos do julgamento precipitado de ignaros levianos e crentes do lugar-comum.

A visão quanto à ética no budismo é tão mal compreendida que essa má compreensão frequentemente acaba sendo o maior obstáculo para o sério exame dos ensinamentos, que dizer para a prática.

Sendo mais direto: a imagem do budista como bonzinho ou santo – como um ingênuo irrealista (passivo e socialmente irrelevante), ou como um ideal ético inacessível – cria tanto fascínio quanto desprezo. Essas duas formas de alienação se tornam desculpas que fazem o budismo parecer algo necessariamente distanciado de quem leva uma “vida comum” (e não vê alternativa viável, ou desejável, a isso).

É bem corriqueiro um budista ser julgado segundo o entendimento usual de como, segundo o preconceito da cultura vigente, um budista supostamente deveria se portar (ver o artigo de Brad Warner, em inglês, Isto, vindo de você, não é muito budista ). Essa visão é uma mistura de estereótipos gerais com relação à religiosidade com algumas ideias específicas e absurdas sobre o que seria um praticante do budismo.

Budista não come carne, acha o interesse sexual algo “pouco evoluído”, não mata barata, não fala alto, e jamais usa de violência ou seria capaz de surrar alguém. Aliás, ele em alguns casos, não pode nem mesmo se interessar por assuntos intelectuais (budista busca não pensar, não é mesmo?), ou fazer uso de ironia e discurso indireto.

Vi um budista dançando e tomando cerveja! Que inadequado! Ou ainda, que fascinante! O budismo nem sempre é tão careta! Os budistas são todos do pau-oco! Etc.

Em outro extremo, o budismo seria o cume do liberalismo individualista. Aí cada um define o que é budismo e age de acordo com seu próprio entendimento, sem se preocupar em nada com coerência com a tradição textual ou comunidade budista. Vale tudo.

Entre o moralismo e o “budismo existencialista” do “tudo é permitido”, é difícil dizer qual visão é mais absurda.

Ademais, o budismo, como diz a famosa expressão do poeta Walt Whitman, “contain[s] multitudes”. Esses julgamentos éticos de mutekpas (gente de fora da prática do darma, que não entende o que fazemos), são errados por três motivos principais, que destrincharei nesse artigo. Eles são: (1) o não entendimento básico do que é o budismo, (2) o não entendimento do que é um praticante budista e o que é prática da ética na visão budista, e (3) o não entendimento da diversidade de pontos de vista e práticas subsumidos no darma.

 

I. “Sabe de nada, inocente”

O primeiro ponto é devido ao fato do budismo ainda estar sendo lentamente digerido pelo ocidente e pelo mundo moderno.

Algumas vezes pensamos, “puxa, o homem já pousou na lua, como é que ele não sabe o objetivo da prática espiritual monástica de um homem vestido de laranja no Sri Lanka?”

O sentido de “não saber” aí é algumas vezes, pior ainda, o sentido de “achar que sabe”, mas efetivamente não saber. Isto é, preconceito. Todo mundo tem uma ideia, a maioria errada, do que seja a prática monástica, e algumas pessoas já viram monges vestidos de laranja.

Se não entendemos bem o que é a prática monástica no cristianismo, e misturamos esse parco entendimento com o que é um bhikshu, ou monge totalmente ordenado no budismo – mais algumas visões da mídia, de Hollywood e de livros datados e mistificadores – o que temos é uma projeção sem cabimento do sentido da prática monástica.

Isto é, a maioria de nós não entende o que é a prática monástica em geral; especificamente no budismo; essa particular ao Sri Lanka neste momento; e o contexto dessa forma de vida no todo do ensinamento do Buda. Talvez haja umas duas dúzias de pessoas no Brasil hoje que tenham uma boa ideia, não muito mais do que isso. Até mesmo pessoas que desejam ser monges muitas vezes não sabem por que existe o ideal monástico no budismo – não é um conhecimento comum.

Mas o objetivo deste texto não é tentar explicar o sentido da prática monástica, e sim falar um pouco da ética laica. Esse é só um exemplo com relação a por onde começa nossa ignorância.

A maioria das pessoas – e a maioria dos budistas –, não está interessada no ideal monástico. E para o budismo, desde que o monasticismo continue existindo e seja sustentado e reconhecido, não há problema nenhum com isso. A maioria das pessoas não sabe isso também, eu mesmo lembro que minha visão estereotipada do budismo era a prática monástica, e o budismo não me interessava porque, se eu começasse a me envolver com ele, e ele fizesse sentido para mim, era, na minha visão distorcida, necessariamente para isso que ele levaria. Era um juízo estético, superficial e furado, a respeito do budismo – que percebo ainda é bastante comum nas pessoas em geral mesmo com o budismo tendo se tornado tão popular, e tão claramente principalmente “laico” no ocidente.

Embora o darma esteja sendo absorvido nas principais línguas ocidentais por agora quase 300 anos, e mais intensamente a partir da década de 1990, os principais projetos de tradução ainda vão levar 100 ou 200 anos para serem concluídos, e, detalhe, não incluem a língua portuguesa. Então, tendo a perspectiva correta, é fácil entender porque quase ninguém no Brasil (exceto a comunidade praticante, e mesmo assim…) tem qualquer ideia do que seja o budismo.

Posso falar da minha experiência pessoal, de alguém que leu alguma coisa e tenta praticar a 20 anos – e mesmo assim não sabe quase nada em comparação a erudição de budistas europeus ou estadunidenses – e o que dizer dos asiáticos. (E, pasmem, mesmo um desnorteado sem educação como este escreve textos aparentemente informados, e até identifica em praticantes antigos erros crassos quanto ao darma… mas estou dizendo isso só para suspirar sobre como o darma é vasto e como o menor esforço em sua direção é válido. Ora, eu respeito muito as tentativas sinceras destas pessoas que algumas vezes não entendem muito, e, é claro, eu deveria estar olhando para minha própria prática, e não para os defeitos dos outros.)

 

II. Ética é prática, não uma qualidade que alguém possui

O segundo ponto é menos geral, e diz mais respeito a pessoas que ainda não tiveram muito contato com a comunidade budista. Nesse caso, são interessados ou curiosos no budismo, admiradores muitas vezes perplexos. É deles que vêm a maior parte do fascínio mágico, que algumas vezes rápida e rasteiramente se transforma em desprezo e deboche.

Isto é, a pessoa olha para os budistas e, por um lado, acha impossível se portar como eles. Não é para ela: a projeção é de um ideal de perfeição muito elevado, e imediato. Ela não vai conseguir porque precisa… xingar no trânsito quando leva as crianças na escola, ou tomar cerveja, ou comer churrasco, brigar no guichê, gemer alto, pintar as unhas, etc… ou, ainda, acha que não consegue manter disciplina de qualquer tipo, nem mesmo de ficar sentada imóvel 5 minutos por dia.

A aparente nobreza dos budistas acaba parecendo desestimulante. Isso é parte do carma da pessoa: em como isso determina como ela vê, em o que ela acha interessante, em o que ela quer para ela num dado momento.

Essas mesmas pessoas, por outro lado, logo estão repostando notícias na internet sobre escândalos nas comunidades budistas. Ah, os monges não sei onde bateram nos outros monges. Ou, genocídio  muçulmano nos canfundós de um país de maioria budista e escândalos sexuais, #metoo, ou um assistente de um grande professor fugiu com o dinheiro, o Dalai Lama tem sapatos Gucci e fica em bons e caros hotéis, etc. ad infinitum e ad nauseam.

“Religião é tudo igual mesmo, não é? Todo mundo é corrupto. Não voto mais em ninguém, e também esse negócio de budismo é só mais uma complicação que eu não preciso!”

Isto é, algumas delas, em vez de respirar aliviadas – porque afinal de contas, os budistas não são tão perfeitos assim, e então mesmo alguém sórdido como nós talvez seja capaz de praticar! – estão agora julgando mal os budistas com o mesmo olhar mimado, repleto de pirraça e bazófia, que logo antes os elevava a um patamar inalcançável e explicitamente brochante.

Infeliz ou felizmente, esses dois extremos são meras desculpas. O radicalismo e o moralismo, e os ideais de perfeição, são projeções que produzem distanciamento – e não são efetivamente comuns no próprio budismo, que é extremamente doce e flexível, mesmo em suas manifestações mais aparentemente estritas, como a via monástica.

Estes extremos de fascínio e desprezo para com o budismo são neuroses próprias de nossa cultura e da modernidade. Tudo que não queremos é aceitar o entendimento de que ética é uma prática, e que, portanto, lida exatamente o tempo todo com justamente a imperfeição ética. Isso é claramente compreendido por qualquer praticante budista (que esteja em contato com a comunidade), mesmo os mais sem noção.

Na verdade, isso é entendido até mesmo por teóricos ocidentais em ética. Um lugar comum que se ouve ao estudar ética na universidade é que “mais se fala em ética quando ela não está presente”. Só que no darma não há essa aparente ironia e má vontade com esse estado, o que importa é que a imperfeição é trabalhável.  

Se não estamos doentes, não precisamos de um remédio. A falha central no entendimento do que seja o budismo é a ideia de que algo como caráter faça de alguém um budista, enquanto que o budismo existe justamente para praticantes, isto é, pessoas que reconhecem uma dificuldade crucial e partilhada por todos os seres não iluminados, e que se colocam num caminho espiritual para lidar com seus obstáculos, inclusive suas muitas e evidentes falhas e fracassos morais.

O budismo, como todo mundo, adora uma história de superação. E essa superação não precisa nem ser muito dramática ou tão definitiva, a superação cotidiana de um pequeno deslize: sentir a raiva mas não abrir a boca, por exemplo – mesmo que, vez que outra sigamos falando rudemente.

Esse exemplo discreto e raro de que podemos exercer liberdade perante nossos próprios impulsos já é como uma grande conquista.

Deve ser prezado, deve ser louvado, deve ser reconhecido. É motivo de regozijo.

Caso os budistas fossem perfeitos, não haveria nenhuma necessidade de budismo, e então, porque eles seriam budistas? A visão ordinária, no entanto, requer uma transformação completa, ou uma santidade absoluta da noite para o dia. Ela cobra isso de si própria, e também dos outros. E quando ela percebe que não consegue, ela desiste – enquanto quando ela percebe que os outros não conseguem, ela debocha e despreza aberta e publicamente.

Essa atitude de radicalismo teimoso e estúpido é exatamente o que impede a prática, e algumas vezes, a aproximação.

Em outras palavras, a prescrição ética no budismo provê um norte, uma ideia de como se portar, e com base nisso é que alguém reorienta a vida na direção da virtude. Isso não quer dizer que imediatamente, após tomar votos laicos (não matar, etc.) ou monásticos (celibato, etc.), alguém vá ser sempre virtuoso, mas que vamos cada vez mais tentar ser virtuosos. Caso contrário, não haveria práticas constantes de reparação de votos e purificação de faltas – e elas são o cotidiano de todo e qualquer praticante, que provavelmente as faz diariamente; ou deveria fazer.

Claro, os “budistas de internet”, o cume dos proponentes de “budismo customizado” embasado em “qualquer coisa que eles ouviram por aí”, não sabem disso, e algumas vezes, o que é pior, nem querem saber.

É só quando reconhecemos que estamos agindo em desacordo com nossa própria melhor natureza, bem como com os ensinamentos (os dois elementos vão tendendo a ser reconhecidos como a mesma coisa), que podemos reconhecer que o budismo tem uma variedade de métodos para lidar com esses desvios.

De fato é reconhecido que a não virtude tem uma boa qualidade: a de que ela é foco de prática e purificação. Se não reconhecemos cometemos muitas desvirtudes diariamente (particularmente de fala, tais como mentir ou falar inutilmente), mais provavelmente estamos em autoengano. Essa é a prática budista: lidar com o reconhecimento de que estamos pisando na bola o tempo todo, constantemente depurar e redirecionar a prática para a melhoria constante, e não desanimar.

De forma alguma nos é exigido perfeição, ou mesmo uma qualidade neurótica e obsessiva em termos de ruminar as próprias faltas – pelo contrário, o praticante vai aos poucos aprendendo a ficar alegre ao reconhecer seus obstáculos, e entender que são trabalháveis e não afetam de qualquer modo sua autoestima ou o desencorajam com relação ao ensinamento do Buda e sua aplicabilidade.

Ou seja, nenhum dos métodos do Buda inclui desenvolver sentimento de culpa, ou o julgamento moralista das ações dos outros, ou de nós mesmos. “Moralismo” significa o abuso da ética pelo materialismo espiritual, mais um sequestro da espiritualidade perpetrado pelo ego, isto é, a noção puritana ou carola que se apropria de noções éticas por questões de imagem ou vaidade.

 

III. Contém multidões

Então do desentendimento geral do que seja o budismo (monástico, laico), ao desentendimento específico do que seja a própria prática que se aspira ou tenta fazer, passamos ao terceiro ponto, a variedade do budismo.

É sabido que o budismo tem diversas formas, e se adaptou a diversas culturas. Embora o cerne ético do budismo seja o mesmo, o Buda reconheceu que o que é apropriado em alguns tempos e lugares, pode não ser apropriado em outros tempos e lugares. Então há um espaço para reflexão ética de acordo com casos e circunstâncias, e também por isso as prescrições éticas no budismo (os votos ou preceitos) são como croquis, uma base nos quais desenvolvemos um critério ético cada vez mais aguçado, que também nos leva a um hábito ético cada vez mais refinado.

Não é que exista um total relativismo ético, em que o momento ou lugar defina o que certo ou errado, mas que ações particulares estão ligadas a momentos e contextos particulares, e precisam ser discernidas em contexto – não é como uma espécie de cheque em branco intelectual que substituiria a reflexão e o treinamento contínuo para o refino de hábitos com uma mera formulação verbal ou máxima.

Segura na mão do preceito do Buda e vai? Não é bem assim.

O Buda sempre adverte que precisamos fazer nossa própria prática de acordo com nosso melhor entendimento, e o apego ao literalismo sem a compreensão do contexto pode levar a transformação da espiritualidade em algo totalmente desvinculado com a realidade e efetivamente amorfo – quando não apenas um objeto de museu ou vaidade.

Assim, um budista pode comer carne por um bom motivo, assim como pode evitar comer carne por um motivo ruim. O que seria um motivo bom para comer carne? Não recusar uma oferenda, por exemplo. Os monges budistas na época do Buda aceitavam a carne, desde que o animal não tivesse sido abatido especialmente para eles como oferenda.

Por outro lado, caso um budista não aceite um pedaço de carne oferecido adequadamente apenas porque tem nojo – e não porque quer defender animais ou proteger sua saúde – dependendo do tipo de prática que ele faz, ele pode certamente estar cometendo uma falta. Entre os momentos e contextos em que as ações mudam de valor, há os externos, ligados a regiões e mudanças sociais, e há os internos, ligados ao tipo de prática ou entendimento de que o praticante dispõe num determinado ponto de seu caminho.

Basicamente, em todas as formas de budismo, julgar as ações dos outros é mau visto também por isso: não só porque nossa mente está olhando para fora, e preocupada com o que não pode mudar (ou quando e se pode, em todo caso é muito mais difícil do que mudar a nós mesmos), mas porque não temos acesso ao entendimento e motivação dos agentes. Essa presunção injustificada é uma forma de má vontade e visão errônea, coisas a evitar.

Nas formas mais sofisticadas de entendimento budista é bastante enfatizado e compreensível que uma pessoa que esteja se portando de forma extremamente estranha, ou até que nos pareça repulsiva, deva receber o benefício da dúvida.

Claro, podemos e talvez devamos chamar a polícia, ou o que for, caso nosso próprio entendimento nos leve a não nos omitir quanto ao que reconhecemos como algo potencialmente negativo para os outros, ou para a comunidade, ou para a própria pessoa. Mas mesmo enquanto ligamos para a polícia, e fazemos nosso dever ético e cívico de acordo com nosso próprio melhor entendimento, caso tenhamos o entendimento do darma, seguimos vendo aquele explícito malfeitor como um Buda potencial, manifestando potencialmente ações de um Buda, mesmo que de forma incompreensível. Um Buda que vamos, nesse caso, também e justamente por devoção, denunciar e mandar para a cadeia.

 

A visão pura não permite julgamento

Caso julguemos o delinquente, e o punamos ou chamemos as autoridades para coibi-lo devido a nosso próprio medo, desgosto ou indignação moral, estaremos agindo apenas como pessoas ordinárias, não como praticantes do darma. Caso nosso objetivo não seja ajudar as potenciais vítimas, dentro do nosso melhor entendimento, mas for sim simplesmente destruir o agressor, focados em uma coisa qualquer intrinsecamente má nele, nesse caso não temos nenhuma ideia do ensinamento do Buda.

Todos nós conhecemos pessoas que são vegetarianas apenas para projetar superioridade moral perante os outros. Porém, a atitude correta de um praticante é fomentar a virtude e diminuir a desvirtude. Assim, o que quer que haja de virtuoso, é motivo de regozijo, e o que quer que haja de misto ou não esclarecido, é motivo de compaixão. Podemos ficar felizes com o fato de uma pessoa ser vegetariana, mesmo reconhecendo que há um bom potencial de sua motivação não ser totalmente perfeita. E também não há nenhuma necessidade de jogar isso na cara dela, ou mesmo de fazer qualquer tipo de ironia ou provocação.

Afinal de contas, porque estamos preocupados com isso? Essa pessoa por acaso nos colocou na posição de guru dela, abriu essa porta para que lhe demos ensinamentos, criemos desafios para que melhore, e a ensinemos como melhor se portar? Acho que muito provavelmente não: nem mesmo os gurus formalmente aceitos, e os discípulos formalmente aceitos, se engajam nesse tipo de picuinha tão frequentemente.

Caso queiramos, em nossa melhor motivação, que ela abandone certas imperfeições que inevitavelmente percebemos devido a nosso hábito insidioso de julgar os outros, o melhor de tudo será lhe dar um exemplo. E para dar exemplo, melhor se focar na própria prática.

Isto é, nesse caso, ser vegetariano o maior tempo que se conseguir, sem nenhum tipo de exibicionismo com relação a isso. Se alguém perguntar, você diz. E se por acaso você come carne às vezes, você confessa isso, e pode lembrar essa pessoa também que mesmo um dia sem comer carne é melhor do que comer carne sempre. Quase invariavelmente é assim: os budistas podem e devem recomendar o vegetarianismo para todos, e mesmo assim, aceitar como praticantes pessoas que só comem churrasco.

Sem problema. Assim você abre a possibilidade de prática mesmo para aquelas pessoas que têm muito apego à carne. Caso contrário, você só tem aversão por essas pessoas – algo que, é preciso dizer, se vê bastante nos âmbitos de espiritualidade new age ou as muitas “novas religiões” de origem asiática.

Não devemos fechar as portas do darma para as pessoas. A maioria das pessoas se arrasta por aí se achando um fracassado moral, a possibilidade de uma melhoria mínima ser aceita como prática é algo que abre as portas do darma para muita gente. Ideais de autoperfeição não são realistas, e não trabalham com hábitos, mas com uma espécie de fascismo interno contra si mesmo.

Além disso, é bom lembrar que a maioria de nós vai mesmo praticar por centenas de vidas ainda, de toda forma. Uma pequena vitória é sempre melhor do que nenhuma vitória, e muito melhor do que uma total desistência, ou o niilismo total da ideia de que “se não podemos ser perfeitos, então que tudo se foda”.

 

Evitando fazer engenharia da vida dos outros

Muitas vezes reconheci professores budistas apontando defeitos em minha visão e prática, mas sem qualquer intenção da parte deles de fazer isto. Sem qualquer tipo de maquinação ou engenharia, mas apenas porque estavam se expressando de forma natural e fazendo sua prática sinceramente – mas o que quer que eles falaram ou fizeram não poderia ser entendido de outra forma no meu próprio contexto: estavam apontando algo sobre minha prática, sem nenhuma intenção disso. Aliás, explicitamente, na maioria dos casos, o professor nem tinha acesso a meu contexto.

Quando reconheço o quanto eu mesmo sou dado a fazer “engenharia da vida dos outros”, meus olhos se enchem de lágrimas perante os muitos exemplos consumados que reconheci, mas que não consigo imitar. Refaço votos de que minha mera presença seja como o sol que derrete naturalmente o gelo das fixações, e que ao fazê-lo, deixa nuas, indefesas e embaraçadas todas as imperfeições e obstáculos internos, externos e secretos. Sem nenhuma intenção de causar o que quer que seja, ou transformar o que quer que seja, mas inexoravelmente implacável em sua radiância natural.

E isto, eu já vivenciei na presença de grandes professores, funciona bem melhor do que julgamentos e maquinações. Aliás, simplesmente funciona, enquanto que julgamentos e maquinações apenas proliferam mais julgamentos e maquinações, e nenhuma virtude.

 

Temperança como também algo além dos extremos

Algumas vezes escrevi que a noção budista de “caminho do meio” como temperança moral é inferior às noções de caminho do meio como “além dos extremos”. Porém a noção de temperança budista é também bastante sofisticada, ela contém um pouco dessa visão “além dos extremos”.

Temperança moral significa aquele comprometimento não perfeccionista com a prática da ética. Isto é, não ficamos desencorajados por não conseguir praticar de forma perfeita, e também não abandonamos a prática cuidadosa e esmerada – bastante demorada e cheia de esforço – que leva a um incremento bastante infinitesimal, mas constante, de nossos hábitos de praticar virtude, em conjunto com uma diminuição igualmente constante e infinitesimal de nossos hábitos de praticar não virtude.

O Buda, antes de se iluminar, achava que passar fome ao ponto de prejudicar o corpo era uma forma elevada de espiritualidade. Quando ele voltou a comer, algumas das pessoas que faziam jejum com ele acharam aquilo (ele agora comer) algo muito depravado. Elas estavam presas a alguma fantasia de santidade, alguma forma de materialismo espiritual em que a perfeição na automortificação era considerada algo muito puro e elevado.

Porém, o Buda ensinou o caminho do meio. Embora ele seja muitas vezes retratado como obeso (nem sempre), o que os ensinamentos efetivamente relatam é que ele passou a comer com o objetivo principal de manter a saúde, para viver de forma mais longa e beneficiar os seres diretamente com sua presença física pelo maior tempo possível. Ele também usava o ato de esmolar o alimento, e de comer o que fosse oferecido sem discriminação, como um campo de geração de méritos para os seres que se encontravam com ele.

 

Virtude sem conceitualização excessiva

Uma vez comprei três empadas de palmito e as ofereci para um grande mestre budista que havia me dito, ao pé do ouvido, “tô com fome”.

Um ato tão simples e tão barato pode ser motivo de regozijo por tanto tempo!

E agora que relato isso, sem nenhum orgulho, uma vez que, bem, eram três empadas de palmito – mas que fossem duas, ou quatro! – eu também dou a outros a oportunidade de regozijar.

Algumas pessoas podem se focar no fato de que o palmito normalmente é uma planta que gera muito sofrimento, e que há uma máfia ligada ao extrativismo. Morre gente, a mata é violada: o palmito é sujo literal e figurativamente.

Ou podem se focar no fato de que empadas podem ser gordurosas, e não são tão saudáveis, possuindo poucas fibras.

Ou se focar na ideia de que professores budistas deveriam comer só arroz, ou comidas santas e sem gosto; com certeza nada preparado numa cozinha industrial de cantina de universidade…

Porém, essas conceitualizações são ordinárias, e não fazem parte da prática, e não só são desnecessárias, são contraproducentes. Depois de exercer algum grau de discernimento, para não oferecer veneno ou algo extremamente inadequado, oferecemos e largamos a maquinação sobre a oferenda. Não precisamos largar o regozijo, mas podemos e devemos abandonar quaisquer coisas que de qualquer forma limitem as “três esferas”, objeto oferecido, recipiente e oferecedor.

Oferecemos com pureza, sem criar limitações.

Da mesma forma que com a virtude, podemos obcecar no casuísmo com relação à não virtude. “Casuísmo” é um termo que vem do cristianismo, diz respeito a examinar um assunto por amor à controvérsia ou debate, não para produzir um efeito útil, ou uma solução.

Mesmo na pós-modernidade, adoramos o casuísmo, só que agora o casuísmo ético não é se a Bíblia ou Deus está mesmo de acordo com isso ou aquilo, mas se qualquer esforço ético realmente adianta, e se não é melhor reconhecer que somos inerentemente fracassados, e que ser uma “boa pessoa” significa abandonar ideais e esforços elevados, e se contentar em ser um animal humano produtivo e bem integrado numa cultura francamente doente terminal.

Em outras palavras, se desejado, o “e se” é infindável. É sim preciso “pensar até o fim”, mas todo final da corrente de pensamentos é arbitrário. É preciso pensar corretamente, mas não ruminar obsessivamente, não maquinar todas as possibilidades do tabuleiro, ao estilo “força bruta”, como algumas vezes se faz em computação – mas desenvolver uma heurística que seja prática e econômica. E, novamente, moderação. Não largamos desconsideradamente toda e qualquer avaliação, mas também não ficamos 10 anos considerando se foi correto ou não cruzar aquele sinal vermelho.

Com o tempo, a prática da ética se torna mais natural, menos mecânica, e mais integrada no hábito de corpo, fala e mente. Não é formulaica, não é ruminante e casuísta, não é carola e cheia de materialismo espiritual, não é julgadora e cheia de culpa, e é uma fonte de verdadeira alegria, contentamento e estabilidade.

Enfim, o budista (ou qualquer um) pode estar errando de acordo com nossa própria percepção, pode estar errando de acordo com a percepção dele, e pode estar errando de acordo com a realidade situacional de uma forma ampla e completa. Ele pode estar até acertando apenas em uma dessas três, ou qualquer combinação. Em todo caso, o melhor para nós mesmos é focar em nossa própria melhoria ética, não na do outro, nem se ele, por ser budista, pareça nesse budismo ersatz criado pelo delírio do desentendido, como mais digno de ser avaliado como alguém que deveria estar fazendo tudo certo.

 

Meu próprio exemplo furado: refrigerante

Este texto foi inspirado por uma série de situações que vivi.

Acho muito curioso que algumas pessoas, pelos meus textos, projetem uma ideia de perfeccionismo moral sobre minha própria pessoa. Claro, elas fazem isso com qualquer budista, e se o budista fica saliente, então mais ainda ele vira um alvo do escrutínio dos outros.

Eu nunca fui tremendamente ou particularmente ruim, mesmo antes do darma, mas, como todo mundo, fiz grandes cagadas. (Aliás, uma vez fui admoestado de que budista não usaria termos de baixo calão!) Algumas vezes encho o saco de uma pessoa ou outra – com minhas expectativas morais absurdas – e peço, por exemplo, para minha mãe, que não é budista, não matar insetos. Só porque eu acho que se ela quer menos doença na sua vida, e viver mais tempo, ela não devia matar.

Uma vez ela viu uma foto de um centro budista em que tinha uma geladeira da Coca-cola. Por alguns anos ela debochava e ria da minha cara sobre como aqueles budistas tão santos faziam propaganda de refrigerante. Ou mesmo, por um tempo, vendiam refrigerante.

Claro, eu mesmo tenho um problema com refrigerante. Isto é, eu gosto muito, mas eu sei que não é bom para mim e me faz mal. Ainda assim, sabendo de tudo isso, costumo tomar refrigerante – mesmo que constantemente tente evitar, e constantemente recaia.

Então minha mãe associou as minhas tentativas de lidar com minha própria fraqueza moral com os budistas de forma geral. Para ela, porque eu muitas vezes tentei recusar Coca-cola em reunião de família, os budistas eram contra refrigerante. Na visão dela, como eu pessoalmente, eles acabavam sucumbindo ao apelo da coisa toda, por um motivo ou outro. Assim, não que eu queira retratar minha própria mãe como uma pessoa torpe, mas ela chegava a ficar feliz de, no entendimento dela, ver os budistas do pau-oco que ela mesma havia projetado.

É claro que o Buda nunca falou nada sobre a Coca-cola, mas fora eu mesmo, eu não conheço ninguém no budismo que tenha um problema ético com o refrigerante. É óbvio, tem muita gente natureba no budismo, e como há uma confluência aí, o refrigerante acaba sendo talvez menos comum em centros budistas do que no resto da sociedade.

Porém, para quem não tem problema com refrigerante – um apego excessivo, como o meu – o refrigerante, para todos os efeitos, é moralmente neutro. Claro, refrigerante em excesso, propaganda, capitalismo selvagem, etc. podem efetivamente ser ruins, mas, ninguém está quebrando nenhum voto ao tomar uma Coca-cola, ou mesmo tendo um boné escrito “Coca-cola” ou qualquer coisa assim. Isso é só uma alucinação da minha mãe, produzida por causas e condições próprias da minha família.

Porém, isso vai mais longe.

Noutra ocasião, eu saí para jantar com alguns amigos praticantes, alguns que só me conheciam pela internet. Nessa ocasião eu não estava com nenhum voto de não beber refrigerante (a pessoa pode fazer um voto de qualquer coisa, e numa ocasião, eu fiz voto de não beber refrigerante). Então eu pedi um refrigerante, e a pessoa que estava na minha frente suspirou aliviada, e chegou a dizer que agora tinha finalmente relaxado.

Não entendi nada, claro.

Aí a explicação é que, por ler meus textos, e sabendo que eu tinha essa questão com refrigerantes, ela estava se sentindo um pouco constrangida de pedir refrigerante.

Ora, é claro que o fato de eu ter problema com refrigerante, e falar de ética na internet, etc. causas e condições se uniram, e eu me tornei uma fonte de constrangimento.

 

Meu próprio exemplo furado: compromisso social e política

Ademais, eu promovo uma série de ativismos. E algumas vezes fui acusado de hipocrisia.

Ora, eu reconheço que Amazon e Google são corporações particularmente problemáticas. Então, eu tento promover o boicote de corporações em geral, e dessas empresas em particular.

Como eu falo bastante de budismo, as coisas se confundem. Por um lado, sim, há relação, por outro lado, essa relação também não é uma relação necessária. O budista pode fazer qualquer tipo de ativismo, mas o melhor ativismo é o que se volta para os próprios impulsos e para a própria mente.

Como disse Shantideva, é impossível cobrir o mundo inteiro com seus caminhos pedregosos de couro macio, mas é possível cobrir os próprios pés com um sapato.

Isto é, a confusão quanto aos resultados do que funciona para mim em termos éticos, com relação ao que é o ensinamento do Buda, é culpa em parte minha, e em parte da confusão de quem lê.

E, da mesma forma que com refrigerantes, a minha tentativa constante de evitar Amazon e Alphabet (Google), e outras corporações, não quer dizer que eu sempre seja feliz nisso. O treinamento ético é uma tentativa constante, a formação de um hábito positivo. No meio disso, mesmo querendo que essas empresas, em seus modos atuais de ação, não sejam promovidas, eu me vejo muitas vezes envolvido com elas.

É um pouco difícil de evitá-las, e algumas vezes as alternativas que existem são quase tão ruins quanto.

É um pouco parecido com algumas críticas políticas desajeitadas em que uma pessoa de esquerda não poderia ter um iPhone, ou algo assim – porque o iPhone surge por causas e condições que demandam o capitalismo e a iniciativa privada. Não só as pessoas ignoram a vasta contribuição da iniciativa pública (talvez maior, a começar por coisas como o alfabeto, até o GPS), como ignoram que, na visão de parte dos críticos do capitalismo, o capitalismo contém as ferramentas de sua própria autodestruição – e não precisam ser evitadas, a não ser que levem o mundo junto, o que é uma consequência possível e a que temos que sempre prestar atenção.

Mas, por um lado essa crítica desajeitada procede, porque os arautos das ideias de radicalismo e perfeição moral geralmente são de esquerda. Então, usando dessa verve julgadora, o argumento funciona em termos irônicos. Mas é uma ironia que afeta a todos indistintamente, e por isso mesmo o argumento é desajeitado.

(Transparência total: embora eu use ocasionalmente Amazon e Google, a Apple eu consigo evitar 100% e com satisfação.)

É óbvio que uma pessoa, para ser budista, não precisa ser anticorporação, ou anti essas corporações em particular. Da mesma forma que refrigerante não é algo eticamente relevante para muitas, talvez a maioria, das pessoas – embora seja eticamente relevante para mim, que tenho um apego excessivo, ou vício.

Caso a pessoa esteja comprometida com o treinamento da mente que o Buda ensinou, o resto todo, em termos de ativismo, pode ser integrado, mas é opcional. A pessoa não precisa ser um budista ativamente feminista, mas pode ser um budista feminista. O feminismo pode ser muito virtuoso, mas não é uma “virtude necessária” – a pessoa pode estar praticando meditação e se focando para falar menos rudemente, ela não precisa estar abrigando animais abandonados, ainda que essa seja uma atitude virtuosa.

Ademais, se o feminismo é igualdade entre os gêneros, a prática do feminismo está subsumida na prática de equanimidade. É por isso que a pessoa pode ou não levantar a bandeira de uma causa específica; a raiz da virtude de todas as boas causas é a prática do darma.

Em outras palavras, não podemos confundir nossas preferências e o que gostamos de integrar em nossa prática budista com essas coisas serem necessárias para o budismo ser praticável. (Embora também haja coisas que não são compatíveis com o budismo)

Também é fato de que, como ética tem a ver com disciplina, e disciplina é um treinamento de hábitos, é possível integrar esses boicotes e visões na prática do darma. É possível, mas não é necessário. Essa sutileza é o que faltou à minha mãe, por exemplo.

 

O sentido de tomar votos, confessar, reparar

Então, isso tudo novamente diz respeito ao primeiro ponto, entender o que é propriamente budismo ou perspectiva budista. Nesse caso, ética é agir no mundo de forma que a prática do darma se torne mais fácil. Para um não budista, é agir no mundo de forma que minimize impacto, prejudique menos os outros, o que está subsumido na prática do darma.

Refrigerantes prejudicam? Podemos dizer que sim, mas não em todo e qualquer caso. Algumas vezes eles podem até ser positivos, algo que é simplesmente prazeroso – sem apego o budismo não vê problema algum em sentir prazer. É só uma sensação. Quando nos fiamos dela para a felicidade, aí há um problema, porque ela não é fonte de felicidade.

Mas enquanto sensação, ela é eticamente neutra, ou até positiva. Desde que uma pessoa não persiga essa experiência de uma forma exagerada – desde que ela tenha temperança – tudo bem.

E isso vale enquanto cultura também. Pode ser que seja virtuoso limitar refrigerantes, ou aumentar impostos sobre refrigerantes, ou regular a publicidade sobre refrigerantes. Mas isso tudo pode ser virtuoso porque, após uma avaliação, se percebe que refrigerantes são um problema de saúde pública. Mesmo eles se tornando um problema de saúde pública, existem várias formas de lidar com refrigerantes, e a regulação em vários níveis é só uma delas. Além disso, em muitos casos específicos, refrigerantes continuam sendo eticamente neutros, e até positivos.

Acho que eu mesmo, junto com aquelas três empadas que dei para o monge, ofereci um guaraná. Afinal de contas, empada é uma coisa difícil de comer sem beber algo junto.

Ligado ao segundo ponto, é o entendimento de que mesmo que eu, que tenho problema com refrigerante, ocasionalmente tome refrigerante, isso é só uma questão restrita à minha prática pessoal.

Isto é, uma coisa é ética, outra coisa é política (no sentido de policy, diretriz, medida política – isto é, uma ação pública que se supõe para o bem estar comum). E dentro da ética, uma coisa é a prática geral, ideal, e outra é a prática real, pessoal.

Se eu estou fazendo um esforço sincero em trabalhar com essa questão, as “recaídas” são objetos de compaixão, por minha parte e de quem quer que assista. Elas não me fazem um “budista pior”, e não devem produzir culpa em mim ou julgamento nos outros.

Eu seria um “budista pior” se eu dissesse que refrigerantes são universalmente neutros, e pior ainda se eu dissesse que posso beber por causa disso. Como eu reconheço que sou falho, e que beber refrigerante tem o potencial de ser uma falha ética (mesmo que nem sempre seja), aí eu não estou sendo um budista ruim (por causa disso!). Apenas uma pessoa comum fazendo suas tentativas, e tentando praticar o darma.

Isso tudo vale mesmo para períodos em que eu faça um voto específico de tomar refrigerante, e acabe tomando refrigerante. Isso de fato aconteceu. Eu fiz um voto por cinco anos, e acabei cumprindo só três. Eu só consegui passar três anos sem tomar refrigerante.

Há formas hábeis e apropriadas de lidar com essa quebra de votos. No caso, eu fiz esse voto perante uma professora minha, e então confessei a quebra.

Caso eu fosse um monge, e quebrasse os votos principais de um monge, tais como o celibato – ou mesmo roubasse algo de um valor maior do que o valor médio de uma refeição na minha região (algo como vinte reais) – aí, é claro, isso seria bem mais grave. Mesmo assim, embora esse tipo de quebra faça com que alguém perca o status monástico – isto é, essa pessoa deixa de ser um monge – essa pessoa pode e deve continuar sendo um praticante leigo do darma.

Ela não deve se sentir desencorajada, e a comunidade budista, dependendo de quanta publicidade se fizer sobre o caso, naturalmente vai julgar, porque essa é a natureza das pessoas. Porém, enquanto praticantes, deveríamos nos esforçar em não julgar mesmo uma quebra tão ofensiva.

Agora, imagine um budista que comete assassinato, ou trafica drogas, ou estupra. Mesma coisa. Isso diz algo a respeito dessa pessoa, não diz algo a respeito do budismo. Essa pessoa pode e deve seguir praticando o darma da melhor forma que puder. Há esse aluno de Trungpa Rinpoche que praticou tonglen por 14 anos na cadeia, depois de ser preso por tráfico internacional de drogas. Hoje ele é um professor. Algumas pessoas se inspiram por essa história.

Da mesma forma, o Buda aceitou Angulimala, um assassino serial, na comunidade budista. (Embora ele tenha matado antes de ser budista e tomar votos, e depois não tenha matado, então o caso é diferente.)

De toda forma, todo mundo quebra votos. O importante é saber restaurar os votos e cada vez menos quebrar votos, em particular, grandes quebras. A pessoa faz isso não só em benefício do darma, mas em benefício próprio.

Não só porque os outros julgam o darma a partir de nossas ações, por mais que isso seja uma expectativa absurda. Claro, na medida do possível, evitamos manchar a imagem do darma por associação com nossas falhas morais – só que isso é melhor realizado com a confissão pública e com a ênfase no fato de que somos iniciantes, mesmo aqueles entre nós que já tem algumas vidas de prática. No fundo, mesmo dezenas de vidas de prática budista, ou até mesmo títulos e tronos, não fazem de nós algo mais do que iniciantes.

O motivo correto para evitar a desvirtude e manter votos é porque não queremos sofrer, e porque queremos progredir no darma. E não precisamos aumentar o sofrimento, sofrendo mais exatamente porque sabemos que estamos criando sofrimento. Na verdade, devemos nos alegrar que temos essa clareza, devemos nos alegrar por saber que o comportamento ético é melhor para nós. Muita gente não sabe disso.

E então, na medida em que esse entendimento se fixa, e se torna um hábito, e agimos cada vez melhor, sem abandonar o foco na perfeição ética, aprendemos a não nos prender nem mesmo a um ideal de perfeição ética. Aí as quebras e imperfeições se tornam aliadas, não porque sejam desejáveis e não importam, mas porque nos conduzem novamente para a prática.

Que abandonemos todo o tipo de julgamento, e, atingindo a perfeição do treinamento da ética que inclui lidar alegre e diretamente com a imperfeição ética, nos tornemos exemplos consumados. Que nosso exemplo seja como o sol que derrete o iceberg das visões cristalizadas, desnudando e deixando vulneráveis os impulsos para ações prejudiciais. Que o olhar implacável e bondoso da onisciência do Buda, pleno e intacto além de todas as trepidações e turbulências, vivo no coração de cada um de nós, seja revelado no gelo de nossas próprias fixações, enquanto este é derretido pelo exemplo da linhagem. O olhar do Buda, como um laser, livre de qualquer parcialidade ou má vontade, desintegra os impulsos para ações prejudiciais. A prática é olhar com estes olhos puros, sem qualquer julgamento.

eduardo-pinheiro-1Padma Dorje é praticante budista e autor de Filosofia: forma de vida & passarela de egos.  Saiba mais sobre seu trabalho no site tzal.org.

Comentarios:

comments

  • Gustavo Ramos

    “Extremamente doce e flexível”.

    Bela definição!

    : )