Estudo revela que ter sentido na vida é mais saudável que ter ”felicidade”.

Pessoas que estão felizes, se sentem bem, mas têm pouco ou nenhum senso de significado e sentido em suas vidas têm os mesmos padrões de expressão genética de pessoas que estão enfrentando adversidade crônica.

MATÉRIA DE EMILY ESFAHANI SMITH PARA O THE ATLANTIC

Por pelo menos na última década, a ideia de ”conquista de felicidade” vem crescendo. Apenas nos últimos três meses, mais de 1.000 livros sobre a felicidade foram lançados na Amazon, incluindo ”Dinheiro Feliz”, ”Pessoas Felizes: Pilulas para Todos”, e, para quem está começando, ”Felicidade para Iniciantes”.

Uma das alegações recorrentes de livros como estes é que a felicidade está associada a todos os tipos de bons resultados na vida, incluindo – a mais promissora – boa saúde. Muitos estudos têm observado a ligação entre uma mente feliz e um corpo saudável – quanto mais feliz você for, mais saúde terá. Em uma meta-análise (síntese) de 150 estudos sobre o tema, os pesquisadores constatam que: “induções de bem-estar levam a uma saúde funcional, e induções de mal estar, levam a um comprometimento da saúde.”

Mas um novo estudo, recentemente publicado na revista Proceedings, da Academia Nacional de Ciências (PNAS) desafia esse retrato cor de rosa. ”Felicidade” pode não ser tão boa para o corpo, como os pesquisadores pensaram. Pode até ser ruim.

É claro que é importante primeiro definir a felicidade, neste contexto. Há alguns meses atrás, eu escrevi uma matéria chamada “Há mais na vida do ser feliz”, sobre um estudo de psicologia que analisou o que a felicidade realmente significa para as pessoas. Especificamente explorou a diferença entre uma vida significativa, com sentido e uma vida ”feliz”.

Parece estranho que haveria alguma diferença entre as duas. Mas os pesquisadores, que analisaram um grande grupo de pessoas por mais de de um mês, descobriram que a ”felicidade” está, para as pessoas, associada a um comportamento egoísta de “tomar”/”sugar” e que ter um ”senso de significado/sentido na vida” está associado com o comportamento altruísta de ”oferecer”.

“Felicidade sem sentido caracteriza uma vida relativamente superficial, auto-absorta ou até mesmo egoísta, em que as coisas vão bem, necessidades e desejos são facilmente satisfeitos, e dificuldades ou situações fora da nossa zona de conforto são evitadas”, os autores do estudo escrevem. “Neste cenário, essa ”felicidade” está ligada a não ajudar os outros em necessidade.” Enquanto ”Estar feliz”, neste cenário, é se sentir bem, ”ter sentido” ou ”vida significativa” esta ligada a uma ação ou aspiração de contribuir para os outros ou para a sociedade de uma maneira maior. Como Roy Baumeister, um dos pesquisadores, me disse “em parte o que fazemos como seres humanos é cuidar dos outros e contribuir para os outros. Isso dá sentido à vida, mas isso não significa necessariamente fazer-nos felizes. (neste cenário, feliz significa sentir-se bem)”

O novo estudo d PNAS também lança luz sobre a diferença entre sentido de vida e felicidade, mas no nível biológico. Barbara Fredrickson, pesquisadora na area de psicologia que se especializa em emoções positivas na University of North Carolina-Chapel Hill, e Steve Cole, um geneticista e pesquisador de psiquiatria da UCLA, examinou os níveis auto-relatados de felicidade e ”sentido de vida” em 80 pessoas.

Assim como no estudo anterior, ”Felicidade” foi definida como ”sentir-se bem”. Os pesquisadores mediram a felicidade perguntando aos indivíduos questões como “Com que frequência você se sente feliz, satisfeito?” e “Com que frequência você se sente interessado na vida?”. Quanto mais fortemente as pessoas se inclinavam a medidas de “bem estar hedonico”, ou lazer e prazer, mais alto era a pontuação dela no ”índice” de ”felicidade”. 

”Sentido” ou ”Vida Significativa” foi definido como uma inclinação para algo maior do que a si mesmo. Eles mediram o ”sentido”/”vida significativa”, fazendo perguntas como “Com que frequência você sente que sua vida tem um sentido de direção ou significado?”, “Com que frequência você sente que tem algo a contribuir para a sociedade?”, E “Com que frequência você acha que pertence a um grupo, comunidade ou círculo social? “. Quanto mais as pessoas se inclinavam a essas medidas de “bem estar eudemônico”- ou, simplesmente, virtude – mais sentido eles sentiam na vida.

Depois de observar o senso de ”sentido na vida” e ”felicidade” que cada pessoa da pesquisa teve, Fredrickson e Cole, com seus colegas pesquisadores, analisaram a expressão de certos genes em cada um dos participantes. Como neurocientistas que usam verificação fMRI para determinar como as regiões do cérebro respondem a diferentes estímulos, Cole e Fredrickson estão interessados em como o corpo, a nível genético, responde a sentimentos de felicidade e sentimentos de ”sentido”/”vida de significado”.

Em uma pesquisa anterior feita por Cole, foi constatada a associação de vários tipos de adversidade crônica a um determinado padrão de expressão de genes. Quando as pessoas se sentem isoladas, estão de luto pela perda de um ente querido, ou estão lutando para pagar contas e dívidas, os seus corpos entram em modo de ameaça. Isto desencadeia a ativação de um gene padrão relacionado com o estresse que tem duas características: um aumento na atividade dos genes pró-inflamatórios e uma diminuição na atividade de genes envolvidos nas respostas anti-virais.

“Você tem um sistema imunológico prospectivo”, Fredrickson me disse: “Se você tem um longo histórico de adversidade, seu sistema imunológico se prepara para infecções bacterianas. Para os nossos antepassados, o isolamento e a adversidade foram associados a infecções bacterianas de feridas com predadores e brigas com membros da mesma espécie. “Por outro lado, se você está bem e tem um monte de conexões sociais saudáveis, seu sistema imunológico se prepara para os vírus, que você está mais propenso a contrair, se você está interagindo com um monte de gente.

Mas o que isso tem a ver com a felicidade?

Cole e Fredrickson descobriram que as pessoas que são felizes e se sentem bem, mas têm pouco ou nenhum senso de significado em suas vidas – em poucas palavras: que estão aqui apenas para festejar – têm os mesmos padrões de expressão genética de pessoas que estão respondendo a adversidade crônica. Ou seja, os corpos destas pessoas ”felizes” estão preparando-os para ameaças bacterianas ativando a resposta pró-inflamatória. A inflamação crônica é, evidentemente, associada com doenças graves, como doenças cardíacas e vários tipos de câncer.

“Emoções positivas vazias” – como as do tipo que as pessoas experimentam durante episódios de mania ou euforia induzida artificialmente a partir de álcool e drogas – “São quase tão ”boas” para sua saúde quanto as adversidades”,  disse Fredrickson.

É importante entender que, para muitas pessoas, um senso de significado/sentido na vida e felicidade na vida se sobrepõem; muitas pessoas tem uma alta pontuação em ambos (ou uma baixa em ambos).

Mas para muitos outros, há uma dissonância – eles sentem que eles estão com pouca felicidade mas que tem muito sentido de vida ou que suas vidas são muito elevadas em felicidade, mas pobre em significado. Este último grupo, que tem o padrão de expressão genética associado a adversidade, representou 75% dos participantes do estudo, uma parcela enorme. Apenas um quarto dos participantes do estudo tinham o que os pesquisadores chamam de “predomínio eudemonístico” – isto é, o seu senso de significado/sentido de vida ultrapassou os seus sentimentos de felicidade (lembrando novamente, que aqui no estudo ”felicidade” significa sentir-se bem, apenas).

Isso é muito ruim, já que o padrão de expressão genética mais benéfico é o associado com ter um senso de sentido de vida. As pessoas cujos níveis de felicidade e sentido ficaram semelhantes/igualados, e as pessoas que têm um forte senso de significado e sentido de vida, mas não são necessariamente felizes, mostraram uma redução nas reações ao estresse. (ou seja, as reações genéticas pró-inflamatórias são desativadas).  Seus corpos não estavam preparando-os para as infecções bacterianas que temos quando estamos sozinhos ou com problemas, mas para as infecções virais que temos quando estamos cercados por um monte de outras pessoas.

No estudo anterior de Fredrickson, descrito em seus dois livros, foram mapeados os benefícios de emoções positivas nos indivíduos. Ela descobriu que as emoções positivas ampliam a perspectiva das pessoas e fortalecem as pessoas contra a adversidade. Por isso, foi surpreendente para ela que o bem-estar hedonista, que está associada a emoções positivas e prazer, foi tão mal neste estudo comparado com o bem-estar eudemonístico.

“Não é a quantidade de felicidade hedônica que é um problema”, Fredrickson diz: “O problema é quando a felicidade hedônica não vem em conjunto com o bem-estar eudemônico. É ótimo quando ambos estão em conjunto. Mas se você tem mais bem-estar hedônico do que se espera, é quando esse padrão [genético] que é similar ao que reage a adversidade, se manifesta. “

Os termos hedonismo e eudemonismo trazem à mente o grande debate filosófico, que moldou a civilização ocidental por mais de 2.000 anos, sobre a natureza do bem estar e de uma vida bem vivida. Será que a felicidade se encontra no ”sentir-se bem” e nas sensações prazerosas, como os hedonistas pensam, ou em fazer o bem e cultivar a bondade, como Aristóteles e seus descendentes intelectuais, os especialistas em ética da virtude, acham? A partir das evidências deste estudo, parece que apenas sentir-se bem não é suficiente. As pessoas precisam de significado e sentido para florescer. Nas palavras de Carl Jung, “O mínimo de coisas com um significado vale mais na vida do que a maior das coisas sem ele.” A sabedoria de Jung certamente parece aplicar-se aos nossos corpos, se não também aos nossos corações e mentes.


Continue lendo sobre o tema, acessando os posts:

”Florescimento humano”, O que é a verdadeira Felicidade? Alan Wallace fala sobre. 

O treino da mente: Eudaimonia em prática. Um trecho do livro de Matthieu Ricard. 

 

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