Dalai Lama: Liderança e A Economia de livre mercado responsável.

INTRODUÇÃO

Por Sua Santidade, o Dalai Lama. 

Em geral, os monges budistas ficam meio isolados do resto da sociedade, pacificamente recolhidos, trabalhando e orando por nosso planeta e pelo bem-estar de todos os seres sencientes. Embora eu seja um desses monges, também tenho as responsabilidades do governo tibetano no exílio, o que me proporciona uma perspectiva mais ampla, uma vez que lido com gente do mundo inteiro. Durante minhas viagens conheci muitos tipos diferentes de pessoas, algumas pobres, outras ricas, cada qual ocupando sua posição no mundo. As pessoas parecem confiar em mim e, por isso, muitas me falam de sua vida e de suas esperanças e apreensões em relação ao futuro. Foi assim que aprendi bastante sobre o que elas procuram. No final das contas, o que quase todos buscam é um pouco de felicidade.

Por que escrevo este livro agora? Porque acho que todos deveríamos nos preocupar e assumir a responsabilidade pelo funcio-namento da economia global, bem como nos interessar pelo papel das empresas na configuração de nossa interligação. Os tempos mudaram, e creio que os líderes das tradições religiosas – com sua capacidade de ter uma visão ampla – devem participar de discussões sobre os negócios e a economia globais. Nosso mundo enfrenta problemas muito graves. Os que me interessam em par- ticular são as formas de aliviar a miséria nos países pobres; o fato de que até nos países ricos o sentimento de satisfação com a vida anda estagnado desde 1950; o impacto negativo sobre o meio ambiente causado pela negligência, por nossa população cada vez maior e pela elevação do padrão de vida; e, finalmente, a ausência de paz em muitas partes do planeta.

Por adotar uma postura racional e lógica perante tais problemas, a abordagem budista muitas vezes é de mais fácil compreensão para os não religiosos. Ela enfatiza os valores humanos e como podemos adotar uma atitude holística para solucionar os proble mas da sociedade. Esta é uma contribuição importante que o budismo pode fazer para tais discussões. Se considerarmos seus ensinamentos em termos da ética laica e dos valores humanos fundamentais, talvez eles também tenham algo com que contribuir para o mundo empresarial. Os conceitos budistas sobre riqueza, trabalho, consumo e felicidade são um pouco diferentes de seus equivalentes ocidentais. A felicidade não é apenas a mera satisfação de nossos desejos materiais e de outra ordem, e esta é uma dis tinção importante. A raiz da felicidade não está naquilo que desejamos nem no que obtemos, mas em algo muito diferente. Provém de um lugar de contentamento que existe independentemente do que ganhamos ou realizamos.

Buda reconhecia que os impulsos orientados para o próprio eu eram muito poderosos. Mas chegou à conclusão de que era im possível satisfazer os desejos pessoais, que constituem um ciclo interminável. As pessoas não podem ser verdadeiramente felizes se não tiverem amizades e boas relações – que são recíprocas. É impossível alguém construir relações positivas quando seu único objetivo é satisfazer os próprios desejos. Acredito que governos e organizações entram nessa equação por colocarem as pessoas em contato umas com as outras; eles geram empregos e riqueza e têm um papel importantíssimo a desempenhar nas questões do padrão de vida e da felicidade humana – e nos pontos em que essas duas coisas se cruzam.

Não estou dizendo que as soluções de que precisamos são simples ou diretas. Ao trabalhar neste livro, compreendi como pode ser difícil, para as pessoas do mundo empresarial, tomar as decisões corretas. Quando o diretor de uma empresa faz uma escolha, ela afeta todos os funcionários, além de um número incalculável de pessoas, sejam consumidores ou fornecedores. Isso se torna especialmente complexo nas grandes empresas globais que operam em muitos países, e por isso a qualidade das decisões é crucial. Por essa razão, quem decide deve não apenas ser competente, mas também ter a motivação e o estado de espírito corretos. A competência específica para o mundo dos negócios mede o talento e o conhecimento e, dessa forma, está fora do escopo deste livro. Mas observar e corrigir a motivação de cada um são aspectos importantes da prática budista e são detalhadamente discutidos aqui, assim como o cultivo do estado de espírito correto.

É fundamental para a filosofia budista a ideia de que o sofrimento existe e de que Buda nos convoca a ajudar a aliviá-lo. Meu objetivo é o mesmo: reduzir o sofrimento e aumentar a satisfação na vida como um todo. O propósito deste livro, portanto, é habilitar leitores e líderes a compreenderem com mais clareza o que acontece em suas mentes e na de outras pessoas, sobretudo no contexto da liderança. Como consequência, espero que vocês se tornem aptos a tomar decisões diferentes, que vão gerar uma melhor qualidade de vida para vocês mesmos, as organizações a que pertencem e todas as outras pessoas afetadas.

MEU INTERESSE E MINHA REFLEXÃO SOBRE O MUNDO EMPRESARIAL E A economia desenvolveram-se nos últimos 50 anos. Minha formação educacional foi de natureza inteiramente religiosa e espiritual. Desde a juventude até agora, meu campo de estudos foi o da filosofia e psicologia budistas. Em certa medida, graças à minha interação com membros tibetanos e chineses do Partido Comunista, aos poucos fui aprendendo sobre diferentes sistemas econômicos. Por inclinação, tendi para o socialismo, mas vi as economias dos países socialistas estagnarem, enquanto as de livre mercado tornavam-se claramente mais dinâmicas. Interessei-me particularmente pelo que tinha dado errado nas economias socialistas e pelos aspectos positivos do livre mercado. Todavia, continua a me inquietar o fato de que este último tenda a aumentar o abismo entre ricos e pobres.

Em 1990, recebi uma carta de Laurens van den Muyzenberg, um consultor administrativo de atuação internacional. Ele sugeriu que em vez de procurar combinar os temas comuns ao comunismo e ao pensamento budista, seria mais eficaz eu considerar de que modo se poderia aprimorar o capitalismo, na tentativa de atender a nossos interesses coletivos. Achei a ideia atraente e o convidei a me visitar. Nós nos encontramos muitas vezes ao longo dos anos seguintes. Depois, em 1999, Laurens sugeriu que, dado o crescente interesse das companhias globais pela governança corporativa – e também o fato de que a tradição budista inclui muitas instruções teóricas e práticas que seriam úteis ao pessoal das empresas, especialmente os líderes –,eu poderia contribuir para a bibliografia que trata deste assunto. Concordamos desde o início que queríamos que o livro fosse de utilidade prática e ajudasse os empresários a tomar decisões mais acertadas. Combinamos que Laurens descreveria o panorama empresarial geral e eu diria como aplicar os ensinamentos budistas aos problemas levantados.

Recomendei-lhe que adotasse uma abordagem holística. Por “holística” pretendi dizer que ele deveria examinar as questões por muitos ângulos diferentes, não apenas o de um consultor administrativo do Ocidente. Creio que um dos grandes problemas do mundo atual é que, embora o volume de informações cresça exponencialmente, as pessoas tornam-se cada vez mais especializa- das e já não conseguem compreender de que modo todas essas ideias interagem para aperfeiçoar a sociedade.

Ao escrever este livro, escolhi assuntos que penso serem importantes, e Laurens os investigou de acordo com sua própria experiência, entabulando discussões com colegas de profissão e fazendo pesquisas sobre as informações publicadas. Ele também entrevistou executivos que eram budistas praticantes, para saber como viam a atividade empresarial. Apesar de nossos esforços, não afirmamos ter encontrado todas as respostas. Ao longo do processo, empenhamo-nos em expor os ensinamentos budistas de um modo que as pessoas do mundo dos negócios pudessem compreender com facilidade.

Não estou interessado em converter ninguém. Meu objetivo é apresentar conceitos budistas que sejam aceitáveis e úteis para pessoas de todos os credos religiosos e para as que não têm credo nenhum.

PERDI MINHA LIBERDADE AOS 16 ANOS E ME TORNEI REFUGIADO AOS 24.

Enfrentei inúmeras dificuldades na vida. Não obstante, conservei a paz de espírito. Posso até dizer que, graças à minha formação budista, sou mais feliz do que muitas pessoas que têm como certa a liberdade e um país para chamar de seu. Essa capacidade de preservar minha paz de espírito deve-se inteiramente aos ensinamentos que recebi e à minha tentativa sistemática de pô-los em prática, treinando minha mente. Tenho a sincera esperança de que esse tipo de treinamento, que é discutido e ensinado neste livro, possa ser adquirido por nossos líderes – no mundo dos negócios e das organizações globais –, a fim de tornar o planeta mais pacífico e sustentável.

lideranca-para-um-mundo-melhorO mundo de hoje enfrenta muitos desafios, em particu-lar a crise econômica que começou em 2008. Neste livro, o Dalai-Lama apresenta seu ponto de vista sobre o perigo de um sistema econômico sem valores morais e sobre a necessidade de uma economia de livre mercado responsável. Nossa riqueza total teve um crescimento enorme e nos beneficiamos de milagres tecnológicos, mas, ao mesmo tempo, bilhões de pessoas vivem numa pobreza abjeta, enfrentamos a ameaça iminente do desastre ambiental e até os que vivem em nações prósperas sentem-se inseguros com relação ao futuro. Abordar esses problemas requer um tipo diferente de liderança, que veja as coisas como realmente são e que seja capaz de resolvê-las de maneira holística. É disso que trata este livro.

Os verdadeiros líderes têm a capacidade de examinar uma questão por muitas perspectivas e, com base nessa visão mais ampla, tomar as decisões corretas. Eles têm a mente serena, lúcida e concentrada. E a verdadeira liderança reconhece a inevitabilidade da mudança, a necessidade de um senso de responsabilidade universal e a importância de combinar o sistema econômico com valores morais.

É nesse ponto que se expressa o desejo supremo do Dalai-Lama – e o meu: que, pelo aperfeiçoamento da qualidade das decisões de nossos líderes, venhamos a viver num mundo melhor para todos.

Laurens  Van den Muyzenberg.

 

Há quem tenha a impressão errônea de que o budismo conduz apenas à passividade, a pessoas que abandonam este mundo materialista e se dedicam a meditações na floresta. Na verdade, esse tipo de isolamento destina-se primordialmente a monges e monjas. Como filosofia, o budismo lida, efetivamente, com indagações clássicas: o que é a verdade e como podemos determiná-la? Qual é o objetivo da vida? Qual é a origem da insatisfação e do sofrimento? O que é este Universo em que vivemos? O que são a natureza humana, o dever e o destino? O que é o bem e o que é o mal?

O budismo também põe enfase também, especificamente sobre praticar as ações corretas: o que devo fazer? E isso pode ser  resumido em dois conceitos: Visão Correta e Conduta Correta. A Visão Correta não tem valor se não leva à ação correta – e é óbvio que praticar a ação correta é fundamental para o sucesso nos negócios.

 A liderança tem a ver com tomar decisões, mas não quaisquer decisões, e sim as corretas. As resoluções dos líderes das empresas globais afetam milhares ou até milhões de pessoas, e as dos líderes políticos atingem dezenas de milhões. Por isso, fazer as escolhas certas é de extrema importância, do mesmo modo que a decisão incompetente pode ter efeitos desastrosos.

Na visão budista, o verdadeiro líder é aquele que toma as resoluções certas. Isso depende de ele ter a Visão Correta e o que o Dalai-Lama chama de “uma mente serena, lúcida e concentrada” – uma mente tranquila, não perturbada por pensamentos e sentimentos negativos, treinada e focada. O propósito deste capítulo é introduzir alguns conceitos centrais da filosofia budista e mostrar que, uma vez adotados, eles podem melhorar a qualidade de nossa vida e de nossas organizações.

Para aumentar a qualidade das decisões que tomam, os líderes têm que aperfeiçoar a mente. Um conceito central do budismo é que todo homem e toda mulher podem decidir aprimorar a mente, e que fazer isso resulta em uma vida mais feliz para eles mesmos e para os outros. Você pode aperfeiçoar a mente pensando e agindo da maneira correta. Mas não pode agir corretamente se não pensar corretamente.

Isso significa refletir antes de cada ação, para ter certeza de que ela se baseia na intenção certa e tem a motivação correta. A intenção certa determina que a ação seja benéfica para o indivíduo e para todos os que forem afetados por ela, ou seja, leva em conta o bem-estar do eu e dos outros. Isso se aplica tanto aos indivíduos quanto às organizações.

Ter a intenção certa é a primeira parte do conceito budista da Visão Correta. A segunda parte reconhece três aspectos da realidade: não existe nada que seja permanente, tudo muda; não existe nada que seja independente; e não existe nada sem uma causa. Talvez você ache que isso é bastante óbvio, mas as pessoas se esquecem de levá-los em conta ao tomar decisões.
Temos a tendência de pensar em nós mesmos como indivíduos separados dos outros, independentes. As organizações também acreditam que são autônomas. Esta é uma visão errada. Dependemos uns dos outros para obtermos proteção, alimentação, educação e emprego. As organizações dependem de seus funcionários, clientes, fornecedores e de instituições financeiras. Reconhecer essa dependência é um dos aspectos fundamentais do budismo: você começa com o todo e vê a si mesmo e sua empresa como parte dele. Isso é chamado de “compreensão da interdependência”, uma interdependência que é particularmente forte nos negócios e nas políticas governamentais.

Pensar da maneira correta depende de ter a mente serena, lúcida e concentrada. Quando a mente é influenciada pela raiva, inveja, medo ou falta de autoconfiança, a pessoa fica perturbada, se torna ineficiente e não consegue perceber a realidade. É preciso desenvolver a capacidade de atenção vigilante.* Isso significa ser capaz de perceber quando um sentimento negativo começa a in- fluenciar seus pensamentos. Também é preciso desenvolver a capacidade de impedir que esses sentimentos negativos o dominem. O indivíduo tem que adquirir e manter o controle de seu estado mental para tomar deci- sões de acordo com a Visão Correta. Nos próximos capítulos explicaremos como treinar a mente para isso. (É necessário adquirir o livro para ler estes capítulos)

A Visão Correta relaciona-se com a intenção por trás da decisão. A Conduta Correta, outro conceito budista, refere-se à qualidade das ações praticadas por uma empresa e seus funcionários em decorrência dessa decisão. Todos os nossos atos devem levar em consideração seu efeito sobre outras pessoas. Trataremos da Conduta Correta mais detalhadamente no próximo capítulo.

*Esse conceito, conhecido em inglês como mindfulness e originário de tradições do budismo e da ioga, refere-se a um estado de conscientização atenta e plena dos próprios atos, pensamentos e motivações, num trabalho profundo de observação de si mesmo, da realidade interna. (N. da T.)

 Este livro singulariza-se por aplicar os princípios da Visão e da Conduta Corretas ao processo de tomada de decisão nas empresas. Uma organização não é a soma dos indivíduos que a integram: é, ao mesmo tempo, mais e menos do que isso. É muito mais porque a organização é capaz de realizar várias coisas que os indivíduos sozinhos não conseguem fazer. E é muito menos porque seus integrantes também têm uma vida privada, família, amigos e participação em outros grupos.

Não queremos afirmar nem dar a impressão de que é fácil aplicar a Visão e a Conduta Corretas. Não é. Atingir a perfeição está fora da capacidade de quase todas as pessoas. O que afirmamos é que todos podem aprimorar sua mente e seu desempenho se assim o desejarem. E isso também é válido para as organizações, sejam elas pequenas, grandes, do setor privado, do setor público, beneficentes, sem fins lucrativos ou não governamentais.

Este livro não diz respeito ao budismo como religião ou estilo de vida. A visão do Dalai-Lama é de que as pessoas podem encontrar valores que as ajudem a levar uma vida boa e responsável seguindo qualquer tradição religiosa – ou mesmo nenhuma. As ideias deste livro, portanto, podem ser aceitas e praticadas por todos.

À PRIMEIRA VISTA, PODERÍAMOS ESPERAR UMA GRANDE DIFERENÇA entre o mundo dos negócios e o budismo, porém seu denominador comum é a importância que ambos atribuem à felicidade. Uma empresa que não tenha funcionários, clientes e acionistas satisfeitos acaba falindo. Buda considerava que a principal finalidade de seus estudos e ensinamentos era descobrir as causas da infelicidade e o que se poderia fazer para reduzir o sofrimento. Sua conclusão foi que a causa básica do sofrimento era o egocentrismo. E se referiu a ele como uma lei da natureza.

O egocentrismo é também causa de pensamentos negativos, que desconsideram as consequências que possam ter para os outros. Trapaça, mentira, ocultação de más intenções, agressão, raiva, arrogância, inveja, maldade e ressentimento, tudo isso são pensa- mentos ou sentimentos negativos. Quando o indivíduo consegue reduzir a ocorrência dessa negatividade, nota uma rápida melhora em seu relacionamento com os outros. É simples! As pessoas preferem lidar com quem se preocupa com o bem-estar delas e não se interessa apenas por si mesmo. Muita gente, no entanto, fica totalmente cega para isso e, ao conhecer alguém, tenta impor suas ideias e convencer o interlocutor de sua própria excelência, sem demonstrar o menor interesse pelo outro.

Quando abrimos os olhos para os danos que podem ser causados pelos pensamentos e sentimentos negativos, a maioria de nós reconhece o valor de controlá-los. Uma medida útil é instalar um “sistema antecipado de alerta”, uma voz interior que diga: “Você está entrando num estado mental negativo. Tome cuidado: certifique-se de não perder o controle de seus processos de pensamento e de suas emoções.” E, o que é mais importante, é preciso dizer a si mesmo: “Lembre-se: se o processo negativo de pensamento for muito intenso, não tome nenhuma decisão importante ou irreversível nesse momento.”

Com o tempo, a pessoa pode atingir um estágio em que já não surjam os pensamentos e sentimentos negativos, ou que eles só ocorram raramente. Isso leva anos de prática, é claro, mas os resultados são recompensadores.

Nos comentários feitos pelo Dalai-Lama no trecho anterior, vemos a promessa dos ensinamentos budistas e a maneira como eles podem ser aplicados ao mundo empresarial. A arena dos negócios e os conceitos do budismo, à primeira vista, formam uma dupla improvável. A primeira, primordialmente preocupada com a produção, o lucro e o crescimento, parece contrastar com estes últimos, que se interessam pela compaixão para com o semelhante e pelo bem-estar da humanidade e de nosso planeta. Olhando mais de perto, porém, constatamos que tanto as atividades empresariais quanto os princípios budistas interessam-se pela felicidade e pela tomada de decisões corretas. No fim das contas, não são uma dupla tão estranha. Quando se aplicam a Visão e a Conduta Corretas aos negócios, a produção de confiança, bem-estar e lucros aumenta significativamente.

Quanto tempo vai levar para que as empresas adotem essa maneira de pensar? As pessoas não mudam hábitos arraigados com facilidade. Embora muita gente esteja consciente de que há algo errado com a maneira como as empresas e o sistema financeiro funcionam, todos ficaram chocados com a crise econômica que eclodiu em 2008. Ela foi o resultado inevitável do crescimento acelerado da interdependência global e das decisões erradas dos líderes, principalmente no setor financeiro. Esses líderes parecem não ter levado em consideração as consequências que seus atos trariam para seus funcionários, clientes e para a sociedade em geral. Sua principal motivação era a ganância.

A VISÃO CORRETA: ADQUIRINDO SABEDORIA

A Visão Correta compõe-se de duas partes: o processo de tomada de decisões e os três valores ou conceitos que têm de ser respeitados ao se fazer escolhas. Os líderes confrontam-se o tempo todo com a necessidade de decidir. Quando surgem situações difíceis, seja no nível pessoal ou no empresarial, a meta é não reagir a partir de uma perspectiva egocêntrica, mas do ponto de vista da companhia e de todas as pessoas e organizações afetadas pela decisão. Nossa preocupação é que o processo –
desde a origem da decisão até a implementação das me- didas e o acompanhamento de seus efeitos – funcione da melhor maneira possível. De acordo com a Visão Cor reta, a tomada de decisões deve focar-se sempre nos efeitos decorrentes da implementação de determinada escolha.

O primeiro ponto a examinar no processo de tomada de decisões é a intenção por trás da ação a ser considerada. Ela deve ser boa, o que significa que, no mínimo, o resultado não deve prejudicar outras pessoas. Em alguns casos, uma ação é benéfica para alguns e inevitavelmente prejudicial a outros. No entanto, deve-se fazer todo o esforço, por meio da criatividade e da inovação, para reduzir os prejuízos o máximo possível. Ao longo deste livro, daremos muitos exemplos do tipo correto de processo de tomada de deciões.

O segundo ponto é o estado de espírito do líder e, na medida do possível, também o das outras pessoas envolvidas no processo. Para aquele que toma a decisão, o desafio é reconhecer a origem de qualquer sentimento negativo, como a postura defensiva ou a raiva, e poder devolver a mente a um estado sereno, lúcido e concentrado.

Ao chegarem ao fim do processo de tomada de decisões, os líderes devem se perguntar: os efeitos desta escolha serão benéficos para minha organização e também para quaisquer outros interessados? Qual é a minha motivação: estou apenas agindo em benefício próprio ou também estou considerando os interesses dos outros?

Pode-se compreender melhor o aspecto de causa e efeito da tomada de decisões por meio dos princípios budistas de originação dependente, interdependência e impermanência, cada um dos quais assim explicado pelo Dalai-Lama:
Originação dependente (causas e condições) é outra maneira de afirmar o princípio da causalidade: a lei de causa e efeito, ação e consequência. Não existe nada que não tenha uma causa e nada se modifica por si só.

Não há nada de novo nesse princípio, mas ter plena consciência dele faz diferença, pelas razões apresentadas a seguir. Uma decisão dá início a uma mudança. A essa mudança haverá inúmeras reações, algumas positivas, outras negativas. Por mais competente que seja a pessoa que decide e por mais que sua mente seja treinada, nenhum líder é capaz de antever todos os efeitos originados por seus atos. Mas aqueles que têm a intenção correta e são muito minuciosos ao refletir sobre os efeitos de suas decisões cometem menos erros.

Nesse contexto, dois outros princípios são importantes: ver as coisas como realmente são e observar as consequências do ponto de vista dos outros e por muitas perspectivas. Voltaremos à aplicação desses princípios ao longo do livro.

Há uma diferença pequena mas interessante entre a ideia “clássica” de causa e efeito e a originação dependente. Nesta última, a ênfase incide sobre o processo que se dá entre a causa e o efeito. Ao se estudar o processo, presta-se especial atenção às condições que possibilitam a ocorrência do evento, bem como às condições das quais depende o efeito. O sucesso da decisão sempre depende de muitas condições que também devem ser analisadas.

Ofereci ao Dalai-Lama um exemplo claro de originação dependente: imaginemos um alto executivo que descubra que um equivalente seu em outra companhia, uma empresa menor e de menos sucesso, recebe uma remuneração maior que a dele. Sua reação instintiva é achar isso injusto. (Não seria natural ele se orgulhar de ganhar um salário menor que o de uma pessoa menos bem–sucedida.) Seu processo de pensamento leva então a uma pergunta: “O que devo fazer, se é que devo fazer alguma coisa?” É provável que alguém que não conheça os conceitos de Visão e Conduta Corretas entre em contato com a diretoria e diga estar sendo mal remunerado, sugerindo que se contrate um consultor para analisar a situação e determinar o nível justo de seu salário. Ele não levará em conta nenhum efeito que seu ato possa ter sobre outras pessoas.

Por outro lado, o líder empresarial consciente da Visão e da Conduta Corretas – que tem a mente treinada – pensa de outra maneira. Pergunta a si mesmo: “Minha mente está sendo influenciada pela ganância? Estarei enveredando por um caminho egoísta?” Ele poderá deter imediatamente esse processo, ou avançar com extremo cuidado. Poderá refletir sobre o fato de que ganha muito mais do que o necessário para levar uma vida confortável. Como parte de sua reflexão, talvez lhe ocorra a ideia de que muitos homens de negócios em cargos semelhantes têm, digamos, grandes casas de veraneio. Ele reconhecerá prontamente que esse é o início de um processo mental marcado pela inveja. E então se perguntará: “De que maneira o meu pedido afetaria o res- tante da companhia?” Esse é um exemplo típico de como ficar atento aos pensamentos e sentimentos negativos. Ele se lembrará, por exemplo, de que recentemente a empresa foi obrigada a demitir funcionários. Seria justo pedir aumento? A moral seria afetada? Esse tipo de questionamento dos efeitos de seus próprios atos sobre os outros prossegue até ele chegar a uma decisão.

No fim, ele poderá decidir levantar ou não a questão da remuneração injusta com seus superiores, mas, de um modo ou de outro, aquele que tem a mente treinada analisará as consequências de seus atos e estará ciente de que deve observar cuidadosamente motivações egoístas e sentimentos como a inveja.

É claro que as decisões tornam-se mais complexas quando passamos do exemplo do executivo como indivíduo e chegamos ao nível da empresa. Quando as organizações tomam decisões, os efeitos têm que ser previstos até o fim, por muitas razões: riscos financeiros, a reputação da companhia e se essa medida será a melhor para a maioria dos funcionários e para todos os outros interessados.

A interdependência é causa e efeito vistos por uma perspectiva diferente. Como nada existe sem uma causa e toda causa tem mui- tos efeitos, a interdependência entre fenômenos diferentes é a consequência lógica. Neste caso, ela significa reconhecermos nossa dependência uns dos outros. Todas as ações surtem efeitos no eu e nos outros. Meus atos têm efeitos em outras pessoas. A reação delas provoca efeitos em mim, e assim sucessivamente.

Uma empresa é um exemplo típico de organização interdependente. Ela depende de clientes, de políticas de governo e de mu- danças no cenário político, e ainda de seus funcionários, acionistas e distribuidores – ações e reações numa cadeia interminável.

A rede de pedras preciosas de Indra – o deus hindu do Universo – proporciona uma bela imagem da interdependência.

0002whag Trata-se de uma rede em forma de esfera, com uma pedra preciosa em cada nó. A luz emitida por uma das pedras é refletida por todas as outras. Os reflexos são devolvidos à pedra emissora e tornam a ser rebatidos. Imagine que você é uma dessas pedras. Você, as outras pessoas e a rede como um todo mudam constantemente, num sistema interdependente.

Os líderes percebem que dependem dos outros, mas, muitas vezes, não compreendem plenamente até que ponto estão sujeitos à reação de pessoas que não estão sob sua direção, como a clientela e os meios de comunicação, por exemplo. Os melhores líderes têm bastante consciência da importância dessas interações para sua reputação: basta um erro grave para que uma reputação manchada precise de décadas para ser reconstruída.

A impermanência é outra consequência da causa e efeito. Dadas as inúmeras causas e efeitos, não existe nada que seja permanente e sem causa. Esse conceito leva a uma enorme confusão, por ser designado na literatura budista como “o vazio”. Essa é uma abreviação de “esvaziado de tudo o que existe intrinsecamente” – ou seja, sem causa, totalmente independente. Isso também pode ser expressado de outra maneira: tudo o que existe são processos que operam numa rede de causas e efeitos. As pessoas sabem que isso é verdade, mas não gostam dessa ideia; prefeririam o estado de satisfação permanente.

Muitos líderes de empresas cometem o mesmo erro. Estabelecem metas e objetivos e esperam que, uma vez alcançados, estes levem a um estado permanente de satisfação. Isso é impossível. Toda meta é um alvo móvel.

Os líderes e todas as demais pessoas devem reconhecer que ocorrerá uma miríade de desdobramentos, os quais tornarão impossível que se atinja uma meta estável de satisfação sem que ocorram alterações, algumas agradáveis, outras nem tanto. Todos temos de enfrentar a realidade e fazer muitas mudanças. Esse é um dos maiores desafios da sociedade atual: lidar com um ritmo crescente de mudanças. Nem mesmo as empresas que tiveram sucesso durante muitos anos continuarão a ser bem-sucedidas para sempre.

A impermanência (ou “mudança constante”) aparece por toda parte no mundo empresarial. É um refrão conhecido pelos atuais dirigentes de empresas. Robert H. Rosen, fundador da Healthy Companies International, assim enunciou essa ideia:
Ao viajar pela Ásia, fiquei particularmente impressionado com o conceito budista de impermanência. A ideia é que a mudança é o estado natural das coisas, que tudo na vida cresce e entra em declínio e que a incerteza e a ansiedade são inerentes ao ser vivo… Comecei a olhar para além do escritório daqueles líderes com quem vinha me encontrando e passei a vê-los como homens e mulheres de verdade, com aspirações pessoais, vulnerabilidades e medos. Comecei a perceber que todos convivemos com algum grau de ansiedade durante boa parte de nossa vida.

As empresas dependem da inovação, da reinvenção delas mesmas, do reposicionamento de seus produtos, de encontrar meios de se manterem competitivas no mercado global e de satisfazerem as demandas mutáveis de seus clientes. Por essas razões, de todos os conceitos budistas, a impermanência é o mais prontamente compreendido pelo mundo empresarial. No entanto, apesar de compreendê-lo, muitas companhias reagem bem lentamente, não pegam a onda seguinte de inovações ou introduzem novos produtos tarde demais.

Talvez você se pergunte qual é a necessidade de dispormos de três conceitos tão similares. A experiência de vários milênios mos- tra que cada um deles ativa diferentes partes da mente, de modo que se adquire uma compreensão mais minuciosa da realidade.
A visão do budismo não é fatalista – não sugere que aceitemos a mudança para pior como uma realidade da vida. Pelo contrário, ao ficarmos cientes da mudança constante e tentarmos identificar as mudanças negativas logo no início, podemos evitar os desdo- bramentos negativos e, em alguns casos, transformá-los em oportunidades positivas. As empresas devem buscar continuamente maneiras positivas de lidar com a mudança.

O budismo enfatiza que esses três conceitos – causa e efeito, interdependência e impermanência – devem ir
além da compreensão intelectual. Devem tornar-se “realizações”; devem ser vivenciados no nível dos sentimentos e transformados em parte integrante da mente.

Enquanto vivemos neste mundo, estamos fadados a deparar com problemas. Se, nessas ocasiões, perdermos a esperança e ficarmos desanimados, diminuiremos nossa capacidade de enfrentar as dificuldades. Por outro lado, se nos lembrarmos de que não somos apenas nós que temos de passar por sofrimentos, mas todas as pessoas, essa visão mais realista aumentará nossa determi- nação e nossa capacidade de superar os problemas. Com essa atitude, na verdade, cada novo obstáculo poderá ser visto como mais uma valiosa oportunidade para aperfeiçoar a mente.

Este livro destina-se a ajudar os líderes das empresas a desenvolverem a capacidade de examinar as questões por muitos ângulos – de curto prazo, longo prazo, dos pontos de vista das diferentes pessoas implicadas – e a usarem essa visão mais ampla para tomarem as decisões corretas.

ACEITANDO A REALIDADE, MANTENDO UMA POSTURA POSITIVA

Portanto, diz a abordagem budista que, para compreender plenamente a realidade – para ver e aceitar as coisas como realmente são –, a pessoa deve aceitar a Visão Correta e exercer um controle considerável sobre os sentimentos negativos, como a raiva ou a inveja. Dois fenômenos que frequentemente nos impedem de ver a realidade são o otimismo fantasioso e pensar nos problemas do passado como se ainda existissem.

O otimismo fantasioso é muito comum no mundo dos negócios. O mercado exige que as pessoas dessa área
progridam, que confiem em sua própria orientação. O empresário pessimista tem pouca probabilidade de êxito. Mas o desejo de ter sucesso leva muita gente do mundo dos negócios a rejeitar as informações negativas. Um exemplo claro disso é quando os funcionários vivenciam um problema no local de trabalho e esperam muito tempo para levá-lo ao conhecimento de seus superiores. Talvez tenham a esperança de que o problema desapareça sozinho, para não terem que ser portadores de más notícias.

Ao verem um colega envolver-se em algo muito negativo, como a corrupção, por exemplo, hesitam em relatar isso, por temerem – em muitos casos com razão – ser punidos. Situações como essa surgem com bastante frequên- cia e ilustram por que, muitas vezes, a diretoria só toma conhecimento dos problemas quando eles já se tornaram muito graves e difíceis de corrigir. Consideremos esta máxima, usada por uma empresa: “Boas notícias devem andar devagar, más notícias devem correr.”

 A adoção dessa mentalidade ajuda as companhias a se manterem mais bem informadas sobre os problemas potenciais, antes que eles se transformem em riscos e vulnerabilidades. É um modo eficaz de ficar a par da realidade, antes que seja tarde demais.

Pensar em problemas do passado como se ainda existissem é outra maneira de expressar o conceito de transposição de experiências passadas para o presente. Quando deixamos um processo negativo de pensamento assumir o controle, desperdiçamos uma grande quantidade de energia ficando aborrecidos e com raiva por causa de um acontecimento passado. Muitas pessoas do mundo empresarial caem na armadilha de gastar sua energia emocional remoendo injustiças que elas ou suas empresas sofreram em outras épocas. Deter-se ao passado como se ele fosse o presente é contraproducente, é perda de tempo.

Consideremos a história de Thitinart na Patalung, presidente da Working Diamond, na Tailândia. Thitinart descreveu que fora muito bem-sucedida nos negócios, mas havia perdido tudo ao ser enganada pelo sócio. Como re- sultado, ficara muito deprimida e cheia de raiva. Por sugestão de um amigo, entretanto, resolveu participar de um curso de meditação. Ao começar a meditar, uma das primeiras coisas que lhe vieram à cabeça foi a imagem do sócio desleal, o que a deixou imediatamente furiosa. Depois de se acalmar, ela pôde analisar seu processo de pensamento. Começou a perceber que estava vivenciando como “real” algo que era apenas um processo mental, sem existência independente. Estava invocando repetidamente a traição sofrida. Comparou o desenvolvimento dessa raiva intensa de acontecimentos do passado a alguém que segurasse um caco de vidro e o apertasse até fazer a mão sangrar, pressionando cada vez mais e aumentando o sangramento. Ao se dar conta de que a raiva que vivenciava só existia em sua cabeça, ela pôde livrar-se do rancor ligado ao passado.

PRIMORDIALMENTE, AS DECISÕES SÃO TOMADAS PARA MUDAR ALGUMA coisa. É comum pensarmos na mudança como a passagem de uma situação para outra, mas essa é uma simplificação perigosa. A situação atual é o resultado de inúmeras causas e condições, e é também dependente de muitas causas e condições. Modifica-se o tempo todo e é impermanente. Reconhecer essas interdependências e interligações inspira um estado saudável de humildade em nós; leva-nos a aceitar a complexidade de fazer uma mudança bem-sucedida. E também deve levar a uma visão holística, e não es- treita, da mudança. Em outras palavras, antes de você tomar uma decisão, considere as consequências por muitas perspectivas diferentes. A aceitação da impermanência também reforça sua determinação de monitorar o modo como as decisões são executadas.

A Visão Correta é um conceito bastante fácil de entender, mas aplicá-lo adequadamente exige habilidade. Toda situação é única e não existem respostas automáticas. Compreender os princípios é o primeiro passo, mas quem toma uma decisão ainda tem que re- fletir muito, aprender a lidar com objetivos conflitantes, pesar as consequências a curto e a longo prazos e considerar os diferentes grupos de interesse. O uso desses conceitos exige prática, e com a prática vem a habilidade.

Desenvolver a Visão Correta é a base em que se fundamentam os outros conceitos deste livro. É impossível chegar a uma mu- dança positiva com a visão errada.

Os capítulos seguintes explicam como combinar a Visão Correta com seu conceito gêmeo, a Conduta Correta, e mostram o valor de descobrirmos uma prática disciplinada que funcione para cada um de nós e para nossas circunstâncias específicas. Mantenha sempre ativas na mente a Visão e a Conduta Corretas, e disso de- correrá uma boa tomada de decisões.

 

A Economia de livre mercado responsável.

A crise financeira que começou em 2008 fez muitas pessoas se perguntarem se há algo errado com o sistema capitalista ou com a economia de livre mercado. Definitivamente existe, sim, alguma coisa errada com o sistema e a forma como ele funciona. A principal causa desse problema tão grave está na visão errada. Mais de 10 mil pessoas já perderam seus empregos tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento, o que gerou sofrimento e desespero.

Muitas instituições financeiras são movidas pela ganância. Seu único objetivo é fazer o máximo de dinheiro no mínimo de tempo possível. Em muitas organizações, essa visão errada é incentivada por meio do pagamento de bonus aos funcionários com base nos lucros que eles produzem. Dessa forma, as pessoas têm pouco interesse nas consequências que suas ações terão sobre os outros a longo prazo.

A gravidade da crise e a rapidez com que ela aumenta são devidas ao crescimento da interligação global econômica e financeira. Quando alguma coisa dá errado num ais, isso se espalha como fogo pelos outros por causa das modernas tecnologias de comunicação, e transporte. Ninguém sabe como combater o incêndio rapidamente, o que talvez seja o mais grave. Muitos economistas acreditavam que os princípios de livre mercado poderiam dar conta do problema, mas, infelizmente, não puderam. Isso reforça minha convicção de que um sistema econômico sem padrões morais é perigoso.

Estou plenamente ciente de que bancos, companhias de seguro e outras instituições financeiras desempenham um papel útil e indispensável na sociedade. O problema é que essas organizações deveriam agir de forma responsável, considerando as consequências de longo prazo e o amplo alcance de suas ações.

Como podemos mudar a cultura gananciosas das instituições financeiras? Ela deve ser substituida por uma cultura de confiança, baseada na Visão e na Conduta Corretas. A confiança entre instituições financeiras, governo e o público em geral foi quebrada, assim como a confiança dentro dessas instituições, entre os funcionários e os dirigentes. A confiança provavelmente é o ativo imaterial mais valioso que uma organização possui. É responsabilidade do conselho diretor determinar o nível de Visão Correta e confiança em sua organização. Isso só pode ser feito por meio de pesquisas confiáveis a respeito do ponto de vista dos consumidores, líderes e outros funcionários. Os resultados devem constar da pauta das reuniões da diretoria e não deveria haver nenhuma tolerância com líderes que tentassem manipular os resultados. Qualquer bônus por desempenho deveria dar igual importância a contribuição de um funcionário para a lucratividade da empresa, ao quanto ele é confiável e a satisfação do cliente.

O gerenciamento de riscos também é fundamental. As instituições financeiras deveriam suspender qualquer produto que os membros da diretoria não fossem capazes de compreender. De outro modo, eles não poderão avaliar o desempenho de tal produto. Serviços financeiros inovadores deveriam ser submetidos a testes e avaliações da diretoria antes de serem lançados no mercado.

Muitas pessoas acreditam que novas regulamentações e melhor supervisão irão prevenir uma crise ainda maior no futuro. Regras mais eficientes e maior controle realmente são necessários, mas não suficientes. A concorrência justa requer uma regulamentação eficaz. O mesmo vale para a concorrência entre países. As nações também devem em agir de acordo com a Visão Correta e estabelecer normas e políticas que levem em consideração as consequências para outras nações.

Está claro que, sem que se mude essa ênfase na ganância, nossos problemas não poderão ser resolvidos. Para que se encontre uma solução é preciso aplicar a Visão Correta. Os governos também têm que aceitar o que chamo de “responsabilidade universal”. Não podem apenas resolver os problemas que seus países enfrentarão a longo prazo, se trabalham com outras nações. Eles devem enfrentar a realidade de que muitas instituições financeiras não seguirão a Visão Correta e continuarão a se concentrar no objetivo de lucros a curto prazo, bem como a explorar quaisquer aberturas, nacional ou internacionalmente. A responsabilidade universal significa que os governos têm que olhar para as regulamentações e políticas não só do ponto de vista nacional, mas também por uma perspectiva mundial. É por isso que defendo o estabelecimento de uma “economia de livre mercado responsável”. 

COMUNISMO E LIVRE MERCADO

Durante grande parte de minha vida, senti-me atraído pelo sistema socialista ou comunista, pois entendia que seu objetivo era proporcionar justiça e um padrão de vida digno para todos. O que me atraiu nele foi seu igualitarismo: as diferenças extremas de padrão de vida entre as pessoas não deveriam ser toleradas. Esse objetivo incluía a abolição da pobreza e a promoção da fraternidade entre as pessoas, dentro dos países e entre eles. Com o tempo, constatei que os países que praticavam o sistema comunista não atingiam esse objetivo; nem sequer tentavam alcançá-lo. Ao contrário, o desenvolvimento estagnou e a liberdade de expressão foi eliminada. Embora eu ainda acredite que o objetivo inicial era correto, passei a perceber as falhas desse sistema.

 Minha compreensão do regime comunista aprofundou-se com os encontros que tive com o presidente comunista da China, Mao Tsé-tung. Pessoalmente, Mao me impressionou de várias maneiras. Quando me explicou o sistema comunista, não percebi de imediato que se tratava de um regime de comando e controle baseado no planejamento central da atividade económica. Mao o explicou como um sistema em que os capitalistas não mais explorariam os trabalhadores, o que eu apoiava totalmente. Não ficou óbvio para mim que a abolição da propriedade privada levaria à propriedade pelo Estado, com uma elite partidária no poder, a qual instituiria seu próprio sistema restritivo de ordens e controle e governaria como uma elite, como as aristocracias do passado.

Hoje sabemos que isso levou a muitas violações dos direitos humanos. Mao me convidou a assistir a uma reunião com seu gabinete. O que ficou especialmente gravado em minha memória foi que ele solicitou aos membros do gabinete sugestões sobre como seria possível melhorar o desempenho do governo. Ninguém disse nada. Em seguida, Mao pegou uma carta que havia recebido, a qual descrevia muitos problemas graves que vinham sendo enfrentados pelo povo, o que me deu a impressão de que ele estava sinceramente interessado no bem-estar dos chineses. Ele me pareceu uma grande personalidade e, durante algum tempo, o admirei. O que finalmente me fez mudar de ideia foi ele me dizer que a religião era um veneno. Mao sabia que eu era budista, e seus comentários deixaram claro que a amizade que ele me havia demonstrado não era sincera. Foi por esse processo de ouvir e observar que vim a depositar minha confiança no sistema de livre mercado. Embora ele também tenha um grande potencial para o surgimento de abusos, o fato de permitir a liberdade e a diversidade de pensamento e religião me convenceu de que era o sistema com que deveríamos trabalhar. Ê claro que ainda acredito que devemos lutar por um padrão de vida adequado para todos, e não na postura de “sobre-vivência do mais apto” comumente adotada pelo livre mercado. Nesse aspecto, há algo a se aproveitar do sistema socialista.

Quase todos os governos modernos optaram por variantes do sistema de livre mercado; as economias controladas exclusivamente pelo Estado foram praticamente descartadas. No entanto, a questão não é tão direta quanto a simples escolha de um sistema, como no caso da China. Nas últimas décadas, a China colocou seus objetivos econômicos acima dos políticos. Seus líderes abandona-. ram as políticas comunistas de planejamento e controle centrais e reduziram a propriedade estatal dos meios de produção. O país identificou quatro áreas a serem modernizadas: a agricultura, a indústria, as forças armadas e a ciência e tecnologia. Na agricultura, as comunidades rurais foram descontinuadas e os camponeses foram autorizados a arrendar terras e a vender sua colheita nos mercados. Criaram-se algumas zonas econômicas especiais, como Shenzhen e Xiamen, nas quais o investimento estrangeiro foi incentivado e se estabeleceram novas fábricas. As forças arma-das foram modernizadas mediante a redução do contingente de soldados e o aperfeiçoamento da tecnologia militar com sistemas avançados de armamentos. Para impulsionar a ciência e tecnologia, milhares de estudantes foram enviados ao exterior,particularmente aos Estados Unidos, a fim de estudar ciências e engenharia.

Embora a China tenha continuado a implementar políticas de livre mercado com grande sucesso econômico, ela passou a ficar sob um escrutínio crescente nos últimos anos. As questões dos direitos humanos continuam sendo um problema. As políticas regulatórias e monetária do país ainda não estão no mesmo nível das de outras economias de mercado. Em outras palavras, a China exibe uma mescla de governo baseado no Partido Comunista e na economia de livre mercado. Embora o padrão de vida geral tenha se elevado, ainda existe uma pobreza generalizada nas áreas rurais e algumas liberdades fundamentais continuam cerceadas.

ALGUMAS LIÇÕES DE ADAM SMITH 

Em 1776, Adam Smith publicou A riqueza das nações. Escrita para os governos, a fim de “instruí-los” sobre as políticas que eles deveriam implementar, a obra defendia que a sociedade tinha a obrigação moral de se certificar de que todos, em especial os trabalhadores, tivessem um padrão de vida digno. A conclusão de Smith foi que isso só poderia ser alcançado através de um sistema de livre mercado; com o termo ‘livre”, ele pretendeu dizer que as pessoas deveriam ter a liberdade de comprar e vender bens e serviços num sistema estabelecido pelo governo. Essa conclusão baseou-se em duas percepções: primeiro, que a concorrência levaria a criação mais eficaz da riqueza; e, segundo, que a concorrência eficaz dependia da regulamentação governamental. Essas percepções são válidas até hoje. Na época de Smith, contudo, o governo não se certificava de que houvesse uma concorrência eficaz. Os governos protegiam as indústrias da competição, impondo às importações tarifas e outras barreiras, como as cotas de importação.

Tais restrições persistem ainda hoje. Adam Smith havia observado que as empresas tentariam impedir a competição, convencendo os governos de que era do interesse nacional protegê-las da concorrência. Isso teria dois efeitos negativos: o poder aquisitivo, sobretudo o dos assalariados de baixa renda, seria reduzido e as empresas não se interessariam por inovações se pudessem obter lucros satisfatórios sem o esforço adicional de aprimorarem seu desempenho ou de inovarem. Smith também observou que as empresas de um dado setor comumente formavam associações que agiam como grupos de pressão sobre o governo para buscar vantagens que teriam de ser pagas pelo público em geral. Do mesmo modo, muitas vezes entravam em conluio para aumentar os preços ao mesmo tempo ou para reduzir a produção aquém da demanda, a fim de poderem inflacionar os produtos. Era tarefa do governo resistir a essas pressões empresariais e impedir a trama que aumentava artificialmente os preços. Essa pressão sobre o governo para distorcer a concorrência não se restringia às empresas e era também exercida por organizações de profissionais liberais e por artesãos integrantes de guildas. Smith não se opunha a tais associações em si, mas alertou os governos para o fato de que elas não estavam interessadas no bem-estar do povo, e sim no delas mesmas. Ele disse: “Sempre que as pessoas ou empresas puderem promover seus interesses egoístas à custa do público, elas o farão.” Smith reconheceu esse interesse egoísta como sendo a “mão invisível”: Ao preferir o apoio à indústria doméstica ao apoio à indústria estrangeira, [todo indivíduo] almeja apenas sua própria segurança; e, ao direcionar a indústria de tal maneira que sua produção seja a de maior valor, ele visa apenas  a seu próprio ganho, e neste, como em muitos outros casos, é levado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte da sua intenção. (…) Não é da benevolencia do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro esperamos nosso jantar, mas da consideração que o que eles têm por seu próprio interesse.

O Datai-Lama reconhece o perigo por trás desse egoísmo.

ADAM SMITH REFERIU-SE AO DESENVOLVIMENTO DO SENTIMENTO moral como o ato de imaginar-se na situação de terceiros. É a isso que nos referimos com “trocar o eu pelos outros”. Infelizmente, ele não enfatizou o bastante a necessidade de as pessoas se exercitarem em preterir o eu em favor do outro. Mesmo tendo um agudo interesse pelas questões morais e uma profunda percepção delas, Smith acreditava que a concorrência e sua regulamentação poderiam levar a prosperidade para todos. O que fica faltando é insistir em que a Conduta Correta também é necessária. Apenas pela mera legislação e pela concorrência, não é possível chegarmos a um padrão de vida digno para todos. Adam Smith e outros economistas preocuparam-se com a geração da riqueza, mas não deram qualquer orientação a respeito de sua distribuição. Karl Marx, ao contrário, examinou o assunto pelo ângulo inverso. Interessou-se somente pela distribuição da riqueza, não pelos meios de gerá-la. A meu ver, as duas coisas são muito importantes. Para atingir essas metas, necessitamos de políticas certas e da aplicação da Visão e da Conduta Corretas.

Em muitos aspectos, Adam Smith esteve à frente de seu tempo. Para ele, o governo tinha muitas tarefas, entre elas o desenvolvimento da infraestrutura física, a criação de direitos de propriedade e um sistema judicial eficaz. Ele julgou importantíssimos os direitos de propriedade, pois estes tornam atraentes para as pessoas o investimento, a Poupança e a melhoria do padrão de vida. Outra preocupação de Smith, assim como do Dalai Lama, era o ideia de que as pessoas começassem o acreditar que a riqueza crescente as tornaria felizes. Ele escreveu que, mesmo existindo a possibilidade desse equívoco, ao menos a busca da riqueza ajudaria a resolver o problema da pobreza. Esse otimismo foi transportado para outras questões. Smith acreditava que era próprio da natureza humana alegrar-se quando os outros ficavam felizes, ainda que não se extraísse disso nenhum benefício. Ele também escreveu que as pessoas dotadas de princípios morais não buscavam aprovação, e sim a autooprovação, por terem vivido de acordo com normas morais apropriadas, mesmo que seus atos não fossem reconhecidos. Ele próprio viveu assim: ao morrer, deixou suas substanciais economias para causas beneficentes.

COM A LIBERDADE VEM A RESPONSABILIDADE 

Tal como Adam Smith, Friedrich von Hayek, um renomado economista do século XX e proponente do capitalismo de livre mercado, reconheceu que estabelecer e proteger a liberdade e a independência em tal sistema eram um grande desafio: A liberdade e a responsabilidade são inseparáveis. Muitas pessoas temem a liberdade. Sem dúvida porque o oportunidade de construir a própria vida representa uma tarefa incessante, uma disciplina que o homem tem que impor a si mesmo se quiser alcançar seus objetivos. Atribuímos responsabilidade ao homem, não para dizer que ele poderia ter agido de outra maneira, mas para fazê-lo agir de forma diferente no futuro. Se prejudiquei alguém por negligência ou esquecimento, isso não me exime da responsabilidade. Deve deixar gravada em mim, com mais força do que antes, a necessidade de ter em mente essas consequências. Mais do que qualquer outro, provavelmente, a sociedade livre exige que as pessoas sejam norteados em seus atos por um senso de responsabilidade que vai além dos deveres impostos pela lei.’

O efeito do sistema de livre mercado, como sabemos, é um nível elevado da renda média, porém com a manutenção de níveis inaceitáveis de pobreza. Por isso, Hayek considerava justificável cuidar dos pobres e disse: Não há dúvida de que um mínimo de alimento, obrigo e roupas, em quantidade suficiente para preservar a saúde, bem como a capacidade de trabalhar e o educação, podem ser assegurados a todos, sem pôr em risco o liberdade numa sociedade que atingiu o nível de riqueza da nossa.

O Dalai-Lama reconhece essa deficiência da maioria das economias de mercado e apoia uma abordagem compassiva, naquilo que chama de economia de livre mercado responsável.

Embora Adam Smith tenha se preocupado com as dimensões morais do sistema econômico, muitos de seus sucessores ignoraram esse aspecto. Considero perigoso o sistema econômico desprovido de uma dimensão moral. É por isso que quero acrescentar a dimensão da “responsabilidade” ao “livre mercado”. Concordo com o conceito de liberdade defendido por Smith e Hayek, mas sinto que ele não nos leva suficientemente longe. O comportamento responsável é necessário por causa das limitações do que é possível alcançar com leis e regulamentações. É impossível o governo fazer as pessoas se portarem com dignidade por meio da lei.

O sistema só pode funcionar de forma efluente quando os líderes empresariais e o governo têm a motivação correta e agem de acordo com eia. A cada ação, o indivíduo deve perguntar a si mesmo: “Estou agindo de forma responsável?” Talvez isso pareça muito banal para várias pessoas, mas qualquer um é capaz de apontar inúmeras condutas irresponsáveis praticadas pelas pessoas à sua volta e, ao mesmo tempo’ não reconhecer as suas próprias. E mesmo ao reconhece-lo, refere-se a outros indivíduos que agem do, mesmo modo. No entanto, no dia em que as pessoas agirem com responsabilidade, serão muito mais felizes, terão paz de espirito. Sentirão que fizeram o melhor que podiam e ficarão satisfeitas.

A CONQUISTA DE LIBERDADE E PROSPERIDADE PARA TODOS 

A meta de garantir liberdade e prosperidade para todos é muito nobre. Ao longo deste livro incentivamos repetidamente os líderes empresariais e governamentais a tomarem o iniciativa de enfrentar a pobreza, promover sustentabilidade do meio ambiente, proteger os direitos humanos e o acesso à justiça e fazer da diversidade uma força. O Dalai-Lama afirma que, se todos esses ob-jetivos forem ativamente buscados, isso se traduzirá em maior paz e numa felicidade mais disseminada para a população de todo o mundo. Ele considerou as possibilidades e a promessa de todas essas áreas, uma a uma.

A REDUÇÃO DA POBREZA

Ao viajar pelo mundo, fiquei surpreso e desolado com a imensa prosperidade de algumas regiões e a pobreza abjeta de outras. O número de ricos no mundo vem aumentando; ao mesmo tempo, no entanto, os pobres continuam pobres e, em alguns casos, estão ficando ainda mais miseráveis. Isso é algo que considero completamente imoral e injusto.

Precisamos enfrentar o problema do abismo entre ricos e pobres, tanto em nível global quanto nacional. Essas desigualdade em função das quais partes da comunidade humana vivem abundância, enquanto outras do mesmo planeta ficam famintas; ou até morrem de fome, são não apenas moralmente erradas, mas também, na prática, uma fonte de agitação.’

UMA ECONOMIA SUSTENTÁVEL

O conceito de interdependência está no cerne da sustentabilidade do meio ambiente, pois é uma lei fundamental da natureza. A miríade de formas de vida existentes é regida pela interdependência. Todos os fenômenos, desde o planeta que habitamos até os oceanos, as nuvens, as florestas e as flores que nos cercam, surgem na dependência de padrões sutis de energia, água e ar. Sem uma interação adequada, eles se degradam e se desfazem. Precisamos reconhecer a importância dessa realidade da natureza, muito mais do que fizemos no passado. Nosso desconhecimento dela é diretamente responsável por muitos dos problemas que enfrentamos. Temos de restringir ao máximo nosso consumo de recursos naturais e caminhar com toda a rapidez que pudermos para o desenvolvimento sustentável. Permitir o crescimento descontrolado da população, tanto em países desenvolvidos quanto nos que estão em desenvolvimento, vai acelerar o esgotamento de nossos preciosos recursos. E a luta por esses recursos é uma grave ameaça à manutenção da paz. Devemos respeitar a matriz delicada da vida e permitir que ela se recomponha.’

A PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Todos os seres humanos, independentemente de suas origens culturais ou históricas, sofrem ao serem intimidados, aprisionados ou torturados. Não basta as Nações Unidas haverem definido os direitos humanos: também é necessário que eles sejam implementados. Considero muito boa a formulação da ONU, mas os direitos dependem da ação responsável. É por isso que dou tanta ênfase a essa palavra na expressão ”economia de livre mercado responsável”.

Alguns governos asiáticos que hoje participam da economia de mercado alegaram que os padrões de direitos humanos utilizados pelo Ocidente não podem ser aplicados à Ásia e a outros países em desenvolvimento por causa das diferenças culturais e de desenvolvimento social e económico. Não concordo com essa visão e estou convencido de que a maioria da população asiática também não, pois é da natureza intrínseca a todos os seres humanos ansiar por liberdade, igualdade e dignidade, e todos têm igual direito de alcançá-las. Não vejo contradição entre a necessidade de desenvolvimento econômico e a necessidade de respeitar os direitos humanos, uma vez que ambos estão vinculados à obrigação da ação responsável. A tradição jamais poderá justificar as violações dos direitos humanos. Por isso, discriminar pessoas de raças diferentes, mulheres e setores mais fracos da sociedade pode ser tradicional em algumas regiões, mas, quando essas formas de comportamento são incompatíveis com os direitos humanos universalmente reconhecidos, elas devem mudar. Os princípios universais da igualdade de todos os seres humanos devem prevalecer.

FORÇA NA DIVERSIDADE

A rica diversidade de culturas e religiões deve ajudar a fortalecer a vitalidade das comunidades, e não constituir uma fonte de conflito, como no caso de muitas partes do mundo. Por trás dessa diversidade encontram-se princípios fundamentais que nos vin-culam a todos como membros da mesma família humana. Estou convencido de que todas as pessoas, independentemente de suas raças, religiões e gêneros, têm as mesmas aptidões potenciais inatas. Considero a diversidade algo muito poderoso e positivo.’ Como tibetanos, temos uma cultura singular, que é valorizada por nosso povo e contribui para o conjunto de ideias de outros povos. Uma de nossas características culturais ímpares é o conhecimento que desenvolvemos com base nos ensinamentos de Buda. Esses ensinamentos não se originaram no Tibete, mas na Índia. Isso mostra o valor do acesso às ideias novas provenientes de outros países. A apreciação sincera das ideias diferentes é muito positiva: enriquece a mente. Gandhi fez uma encantadora afirmação a esse respeito: ”Não quero que minha casa seja cercada de muros por todos os lados nem que minhas janelas sejam vedadas. Quero que as culturas de todas as terras soprem por minha casa com a máxima liberdade possível. Mas me recuso a me deixar arrebatar por qualquer uma delas.”

UMA CONVOCAÇÃO À RESPONSABILIDADE MUNDIAL

 Minhas ideias sobre a responsabilidade mundial desenvolveram–se a partir de meus estudos como monge budista. A preocupação com o bem-estar alheio obriga a que nos aproximemos de todos os seres vivos. Em geral, nosso interesse pelo bem-estar dos ou-tros limita-se a nossa família e amigos, ou àquelesque nos são úteis. Isso não basta. Devemos nos interessar pelo bem-estar de todos. Podemos praticar atos vigorosos para nos defendermos de inimigos agressivos, por exemplo, mas nunca devemos esque-cer que eles também são seres humanos.

 A interdependência entre os países teve um aumento drástico devido à integração econômica, à facilidade das comunicações e ao transporte de baixo custo. Tornou-se muito antiquado pensar apenas em termos de nossa nação ou país e, ainda mais, de nossas al-deias. Os governos têm a responsabilidade não apenas de assegurar a felicidade futura de seu próprio povo, mas também de cooperar efetivamente com outras nações. Não creio que chegaremos a um mundo sem fronteiras num futuro próximo. Todavia, animei-me com a criação da União Europeia e com o modo como os países aprenderam a compartilhar alguns aspectos de sua soberania nacional. Espero que ocorram fenômenos semelhantes em outras regiões. A Organização das Nações Unidas tem fornecido uma orientação importante e praticado atos úteis em nível global. Todavia, sua capacidade de solucionar os problemas mundiais ainda é muito limitada. Sou favorável a um aumento dessa capacidade, mas também a busca de outras soluções.

A liberdade é preciosa. A liberdade que conduz a felicidade depende de ações responsáveis, praticadas pelas pessoas como indivíduos e como membros de organizações. A liderança que reconhece a responsabilidade universal é a verdadeira chave para a superação dos problemas mundiais.

Trechos retirados do livro ”Liderança para um mundo melhor” de Dalai Lama e Laurens van den Muyzenberg.

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