Continuidade no darma: keep going Padma Dorje

Eu tive o mérito de conhecer Chagdud Tulku Rinpoche, um grande lama tibetano que viveu no Brasil de 1995 a 2002, e pude participar de alguns eventos com Sua Eminência. Gostaria de poder me dizer seu aluno, mas ele mal me conhecia, e seria um exagero absoluto e uma total pretensão. Ainda assim, ele treinou mais de duas dúzias de lamas ocidentais, e centenas de alunos diretos que ainda praticam seus métodos do exato mesmo jeito que ele ensinou—e muitas dessas pessoas me são motivo de constante inspiração. De fato, deveria ser motivo de grande regozijo para todas as pessoas conectadas com o darma que as atividades de Rinpoche estejam sendo sustentadas com tanta fidelidade, e sem grande alarde, e por tanta gente, mesmo nas terras limítrofes desse país chamado Brasil.

De todo modo, enquanto seus ensinamentos são preservados, aguardamos que seu renascimento, que é hoje já um adolescente no Tibete, complete o treinamento tradicional para novamente vir nos ensinar.

Rinpoche ficou conhecido principalmente por seus ensinamentos sobre motivação, a base fundamental do caminho espiritual, que inclui a perspectiva do refúgio nas Três Joias e a intenção grandiosa de levar todos os seres à iluminação completa. Cada uma de nossas ações, tenha ela aparência mundana ou espiritual, seja ela de escopo humilde ou grandioso, pode e deve ser realizada de acordo com essa perspectiva base. Isso garante que permaneçamos no caminho espiritual e que geremos um hábito de cada vez mais naturalmente nos engajarmos em ações positivas, e igualmente evitarmos as prejudiciais.

Em uníssono com esse ensinamento fundamental, ele muitas vezes ensinou todos os nove níveis de ensinamentos do darma, da perspectiva da liberação individual ao ápice da grande perfeição, sempre com muito cuidado e de acordo com as necessidades e capacidades dos ouvintes. Com uma voz comoventemente terna, e com um inglês muito peculiar, ele incansavelmente, até os últimos minutos de vida, cativou incontáveis mentes “modernas” — selvagens e extremamente dispersas – na direção do caminho espiritual, em particular dos ensinamentos mais sofisticados do vajrayana.

Porém, além de ser conhecido como “O lama da motivação”, ele tem um bordão famoso, que até chegou a estampar camisetas e canecas vendidas na lojinha do centro: keep going.

Keep going é uma expressão idiomática no inglês, sem tradução direta. A tradução literal é “persista indo”, e a tradução mais comum, que abrange melhor o sentido, embora não o capte totalmente, é “siga em frente”. O termo basicamente quer dizer “persista”, “continue”. Mantenha-se na prática.

Parece uma instrução motivacional simples, mas no contexto geral dos ensinamentos do Buda e de Rinpoche essa injunção ganha muita profundidade.

Existem muitas histórias com contextos para este ensinamento — quase cada pessoa que conheceu o Rinpoche tem uma para contar. O praticante geralmente expunha suas dificuldades pessoais, ou relatava fantásticas experiências visionárias e meditativas. E, em qualquer caso, o Rinpoche só dizia keep going. Isto é, não se desencoraje com os obstáculos, e não fique fascinado pelas conquistas — não se fixe em experiências temporárias, sejam elas boas ou ruins, simplesmente mantenha a prática que você começou.

Há uma história tradicional tibetana sobre um velho que recitava OM MANI PADME HUNG que talvez tenha algo a ver com essa ideia.

Qualquer praticante do budismo tibetano aspira completar o mínimo tradicional de 1,2 milhões de recitações deste mantra de Avalokiteshvara, o Senhor da Grande Compaixão. De fato, o próprio Chagdud Rinpoche fez essa acumulação em benefício de um peixe que matou quando criança, usando os breves intervalos disponíveis em um intenso retiro de três anos, como relatado em sua biografia O Senhor da Dança(Um milhão de recitações pode parecer um número enorme, mas, nesse caso, ele fez estes 1,2 milhões nos intervalos curtos, geralmente usados para dormir, comer e fazer higiene, de um retiro em que se pratica até 16h por dia, e em benefício de um único ser que ele havia prejudicado – obviamente que Rinpoche, ao longo de sua vida, fez uma acumulação total muito maior que esta. É comum mestres que fizeram retiros longos acumularem 20 milhões de mantras com mais sílabas que este, e um tanto mais raramente, há alguns lamas vivos caminhando na terra que acumularam algo como 100 milhões de mantras.)

Embora este mantra de Avalokiteshvara seja muito poderoso e elevado, “recitador de mani” acabou sendo uma expressão um tanto pejorativa no Tibete. Significa basicamente que a pessoa é iletrada, e assim não conhece muito do budismo, e, portanto, tudo que consegue fazer em termos do ensinamento do Buda é recitar essas seis sílabas.

A maioria das pessoas no ocidente não sabe, mas os mantras normalmente ocorrem no contexto de uma liturgia, e essas práticas podem ser extremamente complexas. Elas contêm descrições poéticas em linguagem erudita e condensada (nada semelhante ao coloquial) da meditação que acompanha o mantra, e que tipo de visualizações fazer. Além disso, tais práticas requerem iniciações, permissões, transmissões orais, e explicações extensas de um Guru qualificado – caso contrário a pessoa simplesmente não vai saber executar a prática. Apenas recitar o mantra, sem esse contexto todo, e sem a meditação que o acompanha, ainda produz algum mérito (isto é, causas e circunstâncias para felicidade e encontrar e poder praticar os ensinamentos) – mas é um mérito relativamente pequeno.

Talvez a pessoa, ao imitar externamente o que é um praticante de mantra, e dotada de outros bons méritos, venha a renascer com condições de efetivamente praticar – em outra vida. É talvez o melhor caso possível para um “recitador de mani”. Por outro lado, talvez o mesmo não possa ser dito daqueles que se engajam em meditações da moda, ou mesmo que praticam um budismo moderno que não foca na criação de hábito e interdependência. O curioso é que essas mesmas pessoas algumas vezes olham com escárnio para um suposto recitador de mani.

No entanto o herói de nossa história tibetana é justamente um “velho recitador de manis”, uma pessoa simples que fica sentado o tempo todo na porta de casa, girando a roda de orações numa mão e recitando o mantra de seis sílabas. É tudo que ele sabe fazer.

Pelo menos para quem olha de fora ele é igual a qualquer camponês religioso humilde do Tibete nos tempos anteriores à invasão chinesa.

O velho que recita manis tem um vizinho que volta e meia aparece para falar da vida. “Fiquei sabendo que um de seus cavalos fugiu, que pena!”

E o velho só responde “É mesmo? Mas sou grato por tudo que o Buda me deu.” e segue girando sua roda e recitando os manis.

Passa mais um tempo, e o vizinho retorna:

“Fiquei sabendo que seu filho encontrou o cavalo! E que junto vieram mais dois cavalos xucros que vocês poderão treinar! Que beleza!”

“É mesmo? Realmente sou grato por tudo que o Buda me deu.” E mais mantra.

Daí um tempo o vizinho volta.

“Puxa vida, fiquei sabendo que seu filho caiu do cavalo que estava treinando e quebrou feio sua perna. Ele nunca mais vai poder ajudar na lida da fazenda. Que perda!”

E o velho segue no seu contentamento inabalável: “É mesmo? De toda forma sigo contente com tudo que o Buda me deu”.

Mais um tempo, e é claro, o vizinho retorna.

“Estão alistando forçadamente meus dois filhos para irem para uma guerra, pelo menos você vai ficar com o seu em casa, seguro, já que ele tem esse problema na perna.”

É mesmo? Sempre agradeço por tudo que Buda me deu nessa vida.

Dependendo do seu lama, essa história pode durar uma tarde toda, com eventos e reviravoltas cada vez mais absurdos, o que é parte da graça. (Quem quiser pode ler uma versão com um pouco mais ambientação que traduzi em “O Velho Mani”.) Mas basicamente, o velho mani podia externamente ser um simplório, mas ele tinha um dos pontos essenciais da prática: keep going. Além de seguir na prática, ele mantinha regozijo com o que quer que aconteça, o que é uma qualidade um tanto excepcional!

Chagdud Rinpoche externamente, e a princípio, até parecia estar estabelecendo milhares de “recitadores de mani” – ocidentais que geralmente começavam sem qualquer estabilidade mental ou conhecimento de budismo, muito menos das sofisticadas práticas que ele ensinava. As pessoas sempre entravam nas práticas “do jeito que dava”, o que basicamente significava que todo mundo começou como um recitador de mani, e depois aprendeu os detalhes da prática – ao contrário do Tibete, onde as pessoas, em algumas tradições, só faziam essas práticas depois de um retiro longo e de completar um estudo equivalente a um doutorado.

Alguns professores algumas vezes não acreditavam na capacidade dos ocidentais em fazer tais práticas avançadas, e achavam que Rinpoche estaria “jogando pérolas aos porcos”; e, por outro lado, outros, por um motivo inverso, não viam valor nas práticas tradicionais – a mente moderna seria muito mais “sofisticada” e não cairia nesses “folclores” de bandeiras de oração ou caminhar ao redor de monumentos.

Mas mesmo assim, independente da opinião dos outros, o Rinpoche kept going. A princípio os alunos até podiam se sentir um tanto desconfiados do que estavam fazendo, mas a devoção e a continuidade na prática aos poucos começavam a juntar as peças do “quebra-cabeças”, e eles se descobriam muito mais do que eruditos em ritual ou simplórios recitadores de mani, mas talvez em alguns casos verdadeiros “velhos mani”, deleitando-se em uma suntuosa terra pura de tesouros espirituais, e inabaláveis no contentamento de reconhecer que tudo tem um só sabor.

Tudo isso porque o ponto crucial de todas as práticas é o refúgio, e no caso do vajrayana a Ioga do Guru – unir nossa mente com a do lama.

Põe keep going nisso.

Porém, keep going não termina nem mesmo aí.

Há um ditado tibetano que diz “é melhor não começar muitas coisas, mas uma vez tendo começado algo, termine direito”. O ponto é que o caminho espiritual não tem uma destinação final. Mesmo o resultado final, a iluminação, não é efetivamente um ponto final. A iluminação tem uma expressão que é incessante.

No budismo tibetano o caminho é algumas vezes chamado de “jornada sem destinação”, e no zen japonês eles costumam dizer “a iluminação é definitiva, mas aumenta sempre”.

Também no ensinamento geral do Grande Veículo, o mahayana, fazemos o voto de enquanto houver samsara, renascer nos reinos em que existem seres que sofrem devido à confusão de não reconhecer sua própria natureza de buda. É por isso que professores como Chagdud Rinpoche, que não precisariam renascer, seguem renascendo. O mais puro keep going.

rinpoche em uma cadeira no refeitorio do gonpa brasil
12 de agosto é o aniversário de nascimento de Chagdud Tulku Rinpoche.

De toda forma, no caminho espiritual budista não parece haver muita escapatória: o total desencorajamento causado por experiências difíceis e aparentemente insuperáveis produz apenas uma resposta, keep going. E, da mesma forma, os mais sutis estados meditativos, cheios de êxtase e sabedoria, e sustentados pelos maiores bodisatvas – até mesmo eles! – não são destinações finais: sem nem mesmo olhar para trás, keep going.

E o próprio estado que está além de se preocupar com as ocorrências boas ou ruins também implica keep going!

E se isso vale para tais experiências extremas, também vale para os pequenos obstáculos. Não foi possível fazer meia hora hoje? Fazemos dez minutos de meditação, mas não deixamos de fazer um pouquinho. Pulamos um dia? Não pensamos “agora foi tudo pelas cucuias, eu sou mesmo um desastrado”. Simplesmente, como se faz com os antibióticos – se os tomamos corretamente, e por acaso perdemos um horário – seguimos normalmente para próxima pílula na hora certa, como se não tivéssemos pulado nenhuma. Keep going.

E além das coisas apenas boas ou ruins, tudo isso vale igualmente para as coisas neutras. Recentemente alguém que está fazendo um pouco de meditação shamata todos os dias veio reclamar que a prática estava “muito chata”. A pessoa queria saber se “algo aconteceria”. Será que uma hora se vai levitar ou sentir um orgasmo sem sexo? Será que se vai ter uma experiência visionária de Budas? Ou uma luz difusa começará a emanar? Atravessar paredes? Clarividência? Lembrar-se de vidas passadas? Transubstanciação? Corpo de arco-íris? Projeção astral? Dor nos joelhos? Náusea? Pum? Moscas andando na lente dos óculos? Bom, ninguém sabe. Quer dizer, dor nos joelhos a gente sabe! Porém, caso qualquer uma dessas coisas aconteça, será também apenas mais uma experiência temporária. Só motivo para mais keep going. E, se nada acontecer, também: keep going.

Achar shamata entediante é na verdade por si só um sinal muito poderoso de que a pessoa está provavelmente finalmente começando a meditar. Antes disso, no primeiro encontro com a meditação, nos deparamos com a desordem de nossa loucura interior, e algumas pessoas horrorizadas desistem nesse ponto – algumas vezes após apenas algumas dezenas de horas de prática acumulada. “Esse negócio de meditação é só um monte de conversa interna e delírio, eu não consigo parar de pensar”. E nem era essa a instrução! Meditação, de início, não tem nada a ver com pensar: nem com parar de pensar, nem com começar a pensar.

Quem insiste um pouco no keep going finalmente encontra uma alternância desse estado de desordem com torpor, sonolência. E quem insiste um pouco mais ainda no keep going encontra o tédio. Quem sabe daqui a pouco a pessoa penetra o caminho de shamata de 10 passos, e realmente se torna um meditador? Em todo caso, keep going.

O que é o oposto de keep going?

É seguir de “qualquer jeito”. Porque parar, parar mesmo, ninguém consegue. Estamos todos propelidos pelo carma inercial de nossas muitas vidas passadas. Sem praticar, vamos só nos agarrar a experiências boas, ruins e neutras: no desvario, no cinismo ou no desespero.

Outro oposto de keep going é trocar de prática (ou de sanga!) por um motivo frívolo – isto é, qualquer motivo que nos faça algo parecer bom, ruim ou neutro – mas como uma opinião própria a que nos fixamos. Uma simples questão de “gosto”, no fundo. É uma arbitrariedade de nossa parte, mas algumas vezes acreditamos que estamos sendo muito discretivos. Nesse ponto o professor é essencial, porque nossa tendência a flutuar por tudo sem concluir nada é muito forte. É por isso que renascemos de qualquer jeito, em qualquer lugar, e também por isso que nossos sonhos à noite são de qualquer tipo. Keep going é não se fixar na experiência, mas manter a motivação independente da experiência. É alcançar autonomia na prática – não autonomia quanto ao seu professor ou aos ensinamentos do Buda, mas sim autonomia perante o ego mimado.

O budismo tibetano tem uma palavra interessante para falar de experiência da prática, ou realização. Nyam, experiência temporária. É tudo que acontece no contexto da prática, seja bom ou ruim, assustador ou adorável: sinais de realização, estados meditativos, sensações e sentimentos, experiências visionárias, bem-aventurança, ou maus augúrios ou dificuldades de todo tipo. Nyams podem ocorrer durante a prática formal, ou nos sonhos e na vida cotidiana.

A princípio, nyams são bem-vindos, porque eles encorajam a prática, sejam de que tipo forem. Se forem bons, estamos no caminho certo. Se forem maus, melhor fazer mais prática. Isto é, eles nos forçam a aplicar o keep going vez após vez. Porém, mais adiante eles podem se tornar obstáculos, na medida em que nos fixamos em experiências cada vez mais profundas e impactantes – e se torna mais difícil aplicar o keep going. Alguns praticantes sucumbem e transformam sua prática no próprio nyam – e isso pode os fazer perder muito tempo. Enfim o cerne ou coração de nossa prática é manter a continuidade do refúgio mais sutil, que está além das experiências temporárias. De todo modo, não falamos de nossas próprias experiências temporárias – a não ser com o lama – porque as relatar aumenta a chance de fixação e outros problemas.

A palavra Kha Dro, em tibetano que se refere ao sânscrito dakini, e quer dizer um aspecto feminino da sabedoria ou ser feminino de sabedoria, e é composta pelas palavras “ir” (Dro) e “céu” (Kha). O céu é como keep, algo que se mantém estável não importa o que, e ir é o simples movimento na direção da virtude.

Keep going é também voar como o pássaro garuda, que num bater de asas vai de um lado ao outro do universo. Ele sempre está chegando, e ele sempre está indo – ou, como um epíteto do Buda, é “aquele que está além de ir e vir”. Manter o reconhecimento da sabedoria do lama, que é vasta como o espaço, é se unir com essa continuidade – a continuidade da linhagem, que ele nos apresenta, e a continuidade de nosso fluxo mental com o dele. É a união de espaço e movimento, sabedoria e mérito: sabedoria do lama e mérito nosso, enfim indistinguíveis.

Recentemente o excelente tradutor do comitê Padmakara, Wulstan Fletcher, em um workshop sobre o Caminho do Bodisatva de Shantideva, comentou sobre como é fácil perder o darma. Se você não se esforça para gerar um hábito de interdependência, particularmente através de geração de mérito e aspirações, sua mente, que agora pode parecer tão conectada, rapidamente se degenera e busca outras coisas. Num dado ponto, o darma se torna uma memória, e depois ele é esquecido.

Ele comentou dramaticamente que viu algumas pessoas que chegaram a fazer retiro de três anos – até dois retiros de três anos! – e que às portas da morte não tinham mais nenhum darma em sua vida. Embora suas capacidades cognitivas estivessem intactas, nem mesmo lembravam o darma como algo relevante ou importante, que dizer serem capazes de aplicá-lo!

A reflexão sobre a impermanência de nossa conexão com o darma parece, portanto, crucial. Somos realmente mimados acreditando que essa pontinha de conexão que temos será suficiente para nos garantir até a morte, que pode acontecer mês que vem – ou antes da próxima respiração. Que dizer então nos garantir na próxima vida, já que não é certo que atinjamos realização nesta?

Portanto, um esforço constante para estabilizar e fortalecer nossa conexão é essencial. Precisamos do tal keep going. Ele não é garantido. Ele tem que ser preservado.

Caso paremos, o rio simplesmente nos leva. É preciso seguir perseverantemente até a outra margem, sempre em movimento.

 

Embora eu goste de imitar a atitude humilde dos grandes praticantes, dizendo coisas como “eu sou só alguém que tenta praticar. Se eu por acaso escrevi algo de valor e acharem legal, está bom, se não, está bom também” – como se eu fosse o Dalai Lama ou alguém parecido – eu efetivamente tenho algum mérito em ver valor no Buda, e em um pequeno domínio da língua portuguesa. Além disso, meus dedos não ficam quietos. Se minha pretensão em usar terminologia do darma sagrado em algo que se assemelha ao espantalho de um ensinamento incomodar alguém, eu entendo perfeitamente. Também me incomoda. Mas, independente disso, se alguém visualizar uma flor no céu com uma atitude de verdadeiro desapego, isso será oferenda suficiente a todos os Budas e Bodisatvas. Nem fui eu quem disse isso, ou nem tenho mais certeza de quem foi.

 

PS: Após a publicação desse texto sonhei com o Rinpoche, e ele estava muito triste por eu haver dito que ele não me conhecia. A função do lama é nos conhecer melhor do que a nós mesmos, e o Rinpoche sempre foi muito generoso comigo.

Uma vez eu o ajudei a levantar do trono e ele ficou chocado com a frieza de minhas mãos – eu estivera lavando louça. Hoje em dia, toda vez que eu vejo uma torneira com água quente ou aquecimento, seja onde for, isso me lembra do Rinpoche. Outra vez ele fez um som engraçado quando lhe dei um envelope com uma oferenda 5x maior do que minha oferenda usual. E o envelope nem estava mais pesado nem nada! Em outra ocasião ele ficou muito contente quando lhe dei um escorpião de metal.

Outra vez eu estava pintando o templo (antes dele ter as pinturas tibetanas que tem hoje) e achei que um verde que estava usando numa faixa não estava bonito. Alguém levou isso ao conhecimento do Rinpoche, e ele trocou o tom do verde.

E houve também aquela ocasião em que ele ficou me olhando por um bom tempo – o que me deixou totalmente desconcertado – enquanto eu pintava a parede externa à janela de seu quarto. Olhos extremamente expressivos, numa expressão que misturavam compaixão, e, ouso dizer, admiração.

Também certa vez estávamos varrendo o templo e a Khadro disse para o Rinpoche sair dali, para não aspirar o pó. Ele saiu, mas voltou correndo – correndo! Como uma criança! O detalhe é que o Rinpoche mal conseguia caminhar devido ao diabetes! – e disse “I’m here!” numa voz aguda, de fazer travessura e desafiar a Khadro.

Há alguns outros momentos, mas nessa altura a idade já começa a me fazer confundir sonhos com o que de fato aconteceu. Bom, de todo modo o Rinpoche sempre enfatizou que tudo é um sonho.

eduardo-pinheiro-1Padma Dorje é praticante budista e é autor de Filosofia: forma de vida & passarela de egos.  Saiba mais sobre seu trabalho no site tzal.org.

 

Comentarios:

comments

  • Alex Khouri

    Muito obrigado por esse texto!